terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Aprender a perder tempo



 
A modernidade inventou o hábito de cronometrar o cotidiano. Refiro-me a estranha mania de colocar horário para tudo: para acordar, para trabalhar, para aprender, para amar, para lanchar... É verdade que sempre houve certa divisão de rotinas, mas sem a precisão das horas. Basta lembrar que Galileu estabeleceu as primeiras relações entre espaço e tempo no século XVI. Em 1595, ele descobriu a Lei do Pêndulo, que contribuiu para o avanço dos relógios mecânicos, embora os primeiros relógios fossem artigos de luxo, verdadeiras jóias e símbolos da alta aristocracia. Eram usados mais por status que por sua utilidade.

O fixar tempo para as mínimas ações humanas surge da necessidade de tornar a produção eficiente. Produzir o máximo no menor tempo é um preceito que orientou a revolução industrial e que serviu para regular as relações econômicas e produtivas, mas que não deveria se estender, como ocorre atualmente, a todas as esferas da vida, inclusive a sentimental.

Hoje, o tempo passou a servir de medida não só para observar quantidade de objetos produzidos, mas também para avaliar realização pessoal. Somos mais ou menos realizados conforme consigamos conquistar um bom emprego, comprar uma casa, ter um filho, estabelecer uma relação estável com outra pessoa, concluir os estudos... em prazos previstos. Nos tornamos responsáveis por fechar certos ciclos da vida na idade convencionada como correta, não importam os acasos, as diferentes experiências, os desejos e valores que nos orientam. Certos padrões de idade e realização se fixaram como corretos e as pessoas são responsabilizadas, individualmente, caso não os cumpram.

É preciso alcançar determinados resultados na vida pessoal, do contrário, por alguma razão o sujeito será menos que o outro, seja porque não soube aproveitar oportunidades, gerenciar emoções e desejos, superar fraquezas, ser persistente e disciplinado, fazer as melhores escolhas, enfim, ser eficiente na esfera privada. Desta forma, se o tempo foi uma variável relacionada à eficiência e produtividade no mundo econômico, tornou-se um importante indicador para avaliar se o indivíduo soube bem conduzir sua vida pessoal para uma situação estável.

Ao tornar-se uma medida aplicável a qualquer dimensão da vida, o tempo fez aumentar a auto-exigência, a auto-regulação, sobre domínios que não temos completo controle ou que não permitem padronizações. Como posso saber quando vou me apaixonar? E como pode ser minha a responsabilidade pelo prazo em que essa paixão vai durar? E por que sou mais ou menos apaixonado conforme minha relação dure mais ou menos? Como diria Vinícius de Moraes, há relações que “são eternas enquanto duram”. A experiência do que vivemos e como, e a avaliação se valeu à pena ou não são individuais; não são passíveis de padronização.

Ora, mas se passamos a avaliar nossas realizações pessoais pela variável tempo, somos também mais ou menos eficientes conforme venhamos a concluir ou não os necessários ciclos da vida nos prazos previstos. Eficiência passa a ser um conceito aplicável a esfera privada. Dessa associação decorre uma terceira, tão estranha quanto, a de tornar eficiência sinônimo de felicidade. Nos acostumamos a pensar que pessoas realizadas são pessoas felizes.

Para superar esta confusão, precisamos ter claro que o controle do tempo é uma estratégia para disciplinar o indivíduo. Contar o tempo que o operário leva para desenvolver certa tarefa, por exemplo, é uma forma de impedir que ele se disperse em conversas e devaneios. Aplicado como medida a dimensão privada de nossas vidas, o tempo funciona como autocontrole, com um resultado disciplinar ainda mais rígido e eficiente que qualquer controle externo, pois passa a ser realizado pelo próprio indivíduo e se estende a sua intimidade, aos seus pensamentos, sentimentos e emoções. Regula suas escolhas mais particulares, num nível de profundidade que seria impossível de ser penetrado pelas instituições.

Como o Estado pode dizer como devemos amar, por quanto tempo e se é correto ou não nos entregarmos a uma paixão avassaladora e doentia? A Igreja até pode fazer recomendações, mas que poder ela tem para alterar suas escolhas? Ocorre que, mesmo sem qualquer força coercitiva externa, olhamos para o tempo que regula nossas vidas e pensamos: “É melhor acabar agora esse relacionamento, ele já está atrapalhando o meu trabalho. Estou perdendo tempo demais com essa pessoa”. E corremos para a estabilidade do casamento antes que seja tarde demais.

O tempo é, assim, uma fonte contínua de ansiedade por cumprir prazos e exigências colocados principalmente por aqueles que nos são mais próximos e caros: amigos, parentes, vizinhos, colegas de trabalho. O tempo tem um peso direto sobre a identidade do indivíduo, a imagem que faz de si mesmo, e o prestígio que goza junto aos grupos de que participa. Por isso, é muito difícil para qualquer pessoa romper com a medida de tempo e experimentar sua vida sem qualquer preocupação com o resultado e quando atingi-lo. A atitude mais comum é entregar-se a essa neurose coletiva.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Comer, rezar, amar

“Aqui nos Estados Unidos, o casamento tem um poder místico, intangível: é um passaporte para a idade adulta, para a respeitabilidade e, em certa medida, para a cidadania. Qualquer relacionamento ou estado civil que não seja ‘casado’ é considerado indigno”. A afirmação é de Elizabeth Gilbert, autora do best-seller “Comer, rezar, amar”, numa entrevista a revista Marie Claire. Seu livro deu origem ao filme com mesmo nome e que estreou esta semana nos cinemas brasileiros.

Nele não são apenas os americanos que valorizam tanto o casamento. Liz (personagem principal vivida por Julia Roberts) é questionada várias vezes por outras mulheres a respeito de seu estado civil e é com certo constrangimento que ela responde ser divorciada. Chega a confessar ao amigo que nutria um sentimento de culpa por ter terminado seu casamento, aparentemente, estável e com uma pessoa que gostava dela.

Liz resolve concluir a relação, quando percebe que o sentimento e o desejo sexual se esgotaram e que o casal passaria a uma vida de aparência. Ao terminar o casamento, ela sai a procura do auto-conhecimento e de equilíbrio espiritual. Sua busca é bem ao estilo dos livros de auto-ajuda orientais.

Assistindo ao filme, eu me perguntava: que fundamento para a vida ela encontrará? Confesso que alimentei com certa expectativa a esperança de algo que me surpreendesse. Não foi o que aconteceu. Liz roda três países para extrair conclusões que estão em qualquer livro de auto-ajuda: viver o prazer em si mesmo,  livrar-se de qualquer sentimento de culpa e abrir-se para o risco de um novo relacionamento. No final do filme, sua grande conquista é amar novamente com a mesma paixão do primeiro amor. Se ela tivesse encontrado o atual marido no início do filme, os outros ensinamentos seriam dispensáveis.

Podemos concluir, depois de assistir a “Comer, rezar e amar”, que a grande realização para a mulher é mesmo o casamento e, principalmente, quando ele vem acompanhado de um pouco de paixão. A conquista de Liz não é o amor com sexo avassalador, ou alguém por quem tenha que superar preconceitos sociais, raciais, etc. Não, é um amor adocicado, cotidiano, brejeiro. Sem altos nem baixos, mas constante como os finais de semana em família. Assim o fundamento para sua existência, sua grande conquista, é recuperar a situação de mulher casada, que a legitima socialmente.

Não sou atraída por esses amores bem-comportados, mas pelos amores ao estilo de Nelson Rodrigues. Em “Asfalto Selvagem: Engraçadinha, seus pecados e seus amores”, Luís Cláudio, um funcionário do Itamaraty, propõe a Engraçadinha: “Vamos fugir?” Ela pergunta: “Fugir? Ele responde: “Fugir, sim. Fugir simplesmente. É tão simples fugir”. O amor tem esse ímpeto de romper com tudo sem qualquer preocupação com o que virá depois. Fugir para onde? E fazer o que depois de fugir? Perguntaria qualquer pessoa numa situação de normalidade. Mas quem ama não se pergunta pelo que vai acontecer logo ali em frente. Por um momento a sociedade não existe. É completamente o oposto de quem está preocupado em legitimar-se na sociedade. Diz Renato Janine Ribeiro que o conflito com a sociedade do herói apaixonado vai além daquele vivido pelo revolucionário, pois esse ainda deseja salvar ou recriar a sociedade. Já o apaixonado escolhe a morte social, a morte de suas honras e riquezas, às vezes a própria morte (A Paixão Revolucionária e a Paixão Amorosa em Stendhal).

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O amor não é produtivo


Adão e Eva, de Lucas Cranach
 Nenhuma outra sociedade, a não ser a moderna sociedade ocidental, estabeleceu o amor como base para o casamento. E é fácil entender a razão. O amor paixão é conflituoso com as rotinas da vida cotidiana. Pode fazer o indivíduo alternar situações de estrema tristeza a estrema euforia. Outras horas, o conduz ao simples estado contemplativo. Costuma também não respeitar as regras de relacionamento estabelecidas, subverte diferenças de renda, escolaridade, idade, raça e religião.


“O envolvimento emocional com outro é invasivo – tão forte que pode levar o indivíduo ou ambos os indivíduos, a ignorar suas obrigações habituais”, diz Giddens (1993: 48). Sem contar, que nunca sabemos realmente se de fato amamos. Podemos morrer de amor por alguém hoje e simplesmente odiá-lo amanhã. Por essa razão, em qualquer outra sociedade, o casamento se assentou em fundamentos mais sólidos e estáveis que o estado de encantamento do amor paixão. Estabeleceu-se a partir de contratos econômicos, trocas familiares e obrigações recíprocas.

Mas não é apenas a instituição casamento que, para sua sobrevivência, exige certo domínio sobre as emoções, várias outras organizações e instituições teriam seu funcionamento comprometido se os indivíduos que delas participam não soubessem ou não estivessem dispostos a controlar seus ímpetos de raiva, tristeza, alegria... Simplesmente, o mundo moderno com seus horários, exigências de produtividade, interações civilizadas não seria possível se não tivéssemos aprendido a dominar a torrente de nossos sentimentos.

Freud e Foucault descrevem a repressão da sexualidade como condição para o desenvolvimento de nossa cultura. A libido foi desviada da realização sexual para o trabalho, a arte, a produção intelectual, diz Freud. Já Foucault acredita que o Ocidente desenvolveu técnicas para reprimir a expressão da sexualidade e controlar a intimidade. Mas penso que os instintos e impulsos sexuais são apenas parte de um problema maior que é controlar e dominar todas as nossas emoções. Embora a sexualidade seja conseqüência também de nossas emoções – indivíduos tristes sentem menos disposição sexual, assim como o ciúme alimenta a imaginação e ativa em alguns casos o desejo sexual – não é suficiente o controle sobre a sexualidade e diria até que ele é mais fácil de se obter que o controle sobre a emoção.

A revista Veja (ano 43, n. 39, setembro 2010) traz uma matéria interessante sobre as emoções. Segundo a reportagem, as emoções estão associadas à tomada de decisões, das mais simples às mais complexas, e também resultam de algumas substâncias químicas produzidas pelo nosso organismo. Para o argumento que desenvolvemos neste texto, importa saber que em excesso qualquer emoção pode nos tornar extremamente improdutivos. Até mesmo alegria demais não é bom, poder levar o indivíduo a colocar-se em situações de risco: exagerar no consumo de álcool, praticar sexo inseguro, comprar compulsivamente... Por outro lado, a tristeza também tem seu preço: distúrbios do sono, problemas de peso, fadiga, irritação, apatia, lentidão física e intelectual, entre outras.

As emoções são muitas, mas não importa qual delas, seja em excesso ou em falta, são sempre improdutivas. São necessárias quando dosadas. O medo e a raiva, por exemplo, estão associados ao instinto de preservação, prepara o organismo para reagir em situações de perigo, para lutar ou fugir. Assim, podemos afirmar que se não tivéssemos aprendido a dosar nossas emoções, simplesmente não teríamos desenvolvido qualquer civilização. Melhor, a afirmação não é bem essa. Com base nos estudos de Nobert Elias, veremos que as emoções não são inatas. Elas se desenvolvem e se modificam em sociedade. De alguma forma, as emoções estão relacionadas a conteúdos morais e por isso, as reações das pessoas são diferentes conforme a cultura da qual participam e o momento histórico que vivenciam.
Adão e Eva, Lucas Cranach, 1526

Comportamentos que na Idade Média passariam por normais, hoje nos causariam repugnância, como: escarrar a mesa, mexer o molho com os dedos, limpar os dentes com a ponta da faca, limpar o nariz com a mão, beber no prato... Elias explica que o indivíduo está imbricado numa teia de relações que o leva a desenvolver um controle cada vez mais preciso sobre sua conduta. O que de início é um controle externo, no processo de socialização torna-se autocontrole automático, inconsciente, quase uma segunda natureza.

A reação de nojo é conseqüência de um processo de socialização que nos ensinou formas de condutas convencionadas como corretas. Desde a mais tenra idade, a criança aprende a calcular o efeito de suas ações e de outras pessoas e a controlar seus impulsos e ações. As emoções são reflexos ora de prazer, quando a conduta adota é socialmente aceita, ora como sanções, quando é reprovável. As estruturas psíquicas mais arraigadas e profundas provocam reações químicas conforme a leitura que fazemos do ambiente social.

Com o amor não é diferente. Corresponde a uma reação de prazer quando nos identificamos com o outro, mas um sentimento que também foi dosado e modelado no decurso do processo civilizador. Antes de tornar-se fundamento para o casamento, o amor era um sentimento clandestino, que acontecia entre amantes e em segredo; que desembocava no crime, no suicídio, na tragédia; e que não abria mão do ímpeto da raiva e do ciúme. O amor era uma doença para as famílias cristãs, até mesmo com sintomas descritos em livros médicos, e não recomendado às boas moças.

Transformamos o elemento de liberdade e transgressão do amor, num sentimento bem comportado, racionalizado e represado nas regras do casamento – que também mudaram. O casamento deixou de ser um simples contrato econômico e passou a incluir, entre os seus fundamentos, o amor e a vida sexual. O casamento perdeu desta forma grande parte das suas qualidades de racionalidade e pragmatismo, mas a sociedade conseguiu delimitar um espaço onde o amor pudesse existir sem colocar constantemente em risco as instituições. Não apenas deram-lhe um lugar, mas também fizeram seus participantes acreditar que o que antes era espontâneo e fugaz, poderia durar o resto da eternidade como parte do elemento divino no homem.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A civilização e a domesticação do amor em Austen e Brontë


Os personagens de Jane Austen surpreendem pelo tanto que são comedidos em suas emoções, polidos em suas maneiras, assexuados e cercados por constantes obrigações sociais. As menores atitudes - como um olhar, o tom de voz, o enrubescer - estão carregadas de significado e são controladas pelos mais próximos. Seus personagens experimentam um autocontrole tão rigoroso que fiquei em dúvida se poderíamos das descrições de Austen deduzir as regras de conduta que orientaram a sociedade inglesa na passagem do século XVIII ao XIX. Seriam reflexos dos ideais religiosos protestantes ou deveriam ser tratadas como simples abstrações de um ideal conduta desejada pela autora?

Resolvi ler outra autora do mesmo período e da mesma corrente literária. Parti para Emily Brontë, O Morro dos Ventos Uivantes. E que surpresa ao deparar com personagens e descrições da sociedade completamente avessas aquelas de Jane Austen! Qual a razão?

Austen fala das relações cotidianas e familiares da nobreza inglesa. Alguns de seus personagens não são nobres, mas é sobre as relações da nobreza com a classe média ascendente, a comunicação entre integrantes dessas duas classes, que a maioria dos conflitos que norteia sua obra se desenrola. Já Emily Brontë volta-se para a sociedade distante dos círculos de convivência com a nobreza, focaliza o modo de vida daqueles que residiam no campo e que pouco contato mantinham com os salões e teatros onde se desenvolviam os hábitos sociais mais sofisticados. Seus personagens vivem isolados nas grandes propriedades rurais e o a maior proximidade que experimentam com o mundo civilizado e citadino é a missa na capela do vilarejo.

Não participam, como os personagens de Austen, dos bailes, não se obrigam a manter uma rotina de visitas, jantares e outras obrigações sociais. Vivem mais em contato com a natureza e com os animais. É verdade que os personagens de Austen também residem no campo, mas estão continuamente em viagens para Londres – centro da civilização. Em Morro dos Ventos Uivantes, eles nunca saem do campo, não têm amigos ou parentes fora daquele ambiente.

A distância tão clara entre a vida social e as regras de conduta descritas por Austen e Brontë não resulta apenas de diferenças de estilo entre as autoras ou do objeto de suas descrições. Denuncia a visão de mundo dominante naquele período que apontava para qualidades do comportamento discrepantes entre o campo e a cidade, entre aqueles distantes do mundo civilizado e os outros que o construíam. É conhecido que a nobreza da corte (alta nobreza) mantinha certo desprezo pelo comportamento da nobreza provinciana (Balzac, Nobert Elias). Quanto mais próxima a convivência com o rei e sua corte, maiores eram as exigências sobre os modos de vestir, comer, falar, caminhar... A sofisticação de modos e linguagem conferia status ao indivíduo e facilitava estabelecer amizades, obter novos convites para eventos sociais, manter-se presente no ambiente onde o poder e o prestígio se distribuíam. Por essa razão, podemos dizer que não se trata de construções abstratas das duas autoras, mas reflete a visão que a classe média ascendente e a nobreza tinham das distâncias que separavam esses dois mundos e do que era portar-se de maneira civilizada.

As diferenças no comportamento dos personagens e da vida social que participam, entre as duas autoras, resultam de cortes distintos sobre a realidade social, no entanto complementares de uma visão de mundo dominante naquele período e que pode ser lida em outros autores.

Muitas das características do personagem Heathcliff (Morro dos Ventos Uivantes, Emily Brontë, 1847) aproximam-se de Drácula (Drácula, Bram Stocker, 1897). Não são obras próximas, cinqüenta anos as separam. No entanto, não acredito que as semelhanças sejam acasos. Drácula e Heathcliff são acometidos por um amor fulminante e impossível. Perdem a mulher de suas vidas por amor. Não é uma morte natural – claro suicídio no primeiro caso e morte provocada no segundo. A partir deste momento, eles se isolam do mundo, rompem com as regras morais católicas e praticam a maldade e a violência de maneira gratuita. Do amor passam ao ódio, que alimentará a vingança impiedosa que empreendem. Se transformam numa espécie de monstro que vaga no limite entre o mundo real e o sobrenatural. É a paixão desmedida, incontrolada, a incapacidade de Drácula e Heathcliff de dominarem suas emoções, de racionalizarem seus sentimentos, que os levam para o crime e que os aproximam da selvageria e bestialidade.

Se fosse possível traçar uma linha imaginária, de um lado estariam a razão e os sentimentos religiosos e do outro, a insensatez e os impulsos demoníacos. Em Brontë e Bram Stocker, o amor é um sentimento que não cabe nas convenções e instituições sociais estabelecidas. De tão desmedido torna suas vítimas insanas e as enclausura numa dimensão não humana, que impossibilita viver em paz. Essa definição diabólica do amor também pode ser lida nos textos médicos e religiosos do período. Para a Igreja, amar alguém mais que a Deus era pecado e impedia o indivíduo de conquistar a vida eterna. A Igreja Católica defendia a renúncia completa ao mundo – nada mais terreno que desejar realizar-se no outro. No protestantismo, não se trata de renunciar ao mundo, mas de viver os ideais cristãos no cotidiano, fazer uso das coisas do mundo para servir e glorificar a Deus. Os prazeres terrenos não podem ser experimentados como fins em si mesmos, devem servir como instrumentos para edificar um mundo ordenado e coerente com a vontade divina (Cf. As fontes do Self, Charles Taylor). Desse modo os sentimentos precisam ser moderados, distanciados, domesticados e capazes de caber nas rotinas da vida familiar. Como as pessoas devem se comportar na visão protestante é exatamente (por coincidência ou não) como são descritos os personagens de Jane Austen.

Eles não se parecem em nada com Drácula e Heathcliff. São extremamente racionais, educados, contidos e capazes de administrar situações estressantes e conflituosas conduzindo-as para finais felizes. É precisamente pela habilidade que possuem em gerenciar a expressão e a vazão de suas emoções que evitam que as situações que atravessam desemboquem na tragédia, no suicídio, no crime e na infelicidade.

Agora podemos resumir a visão de mundo desses três autores: Stocker, Austen e Brontë.

O amor e qualquer outro sentimento incontrolado só são possíveis num mundo que ainda não se civilizou. Persistem em pessoas que vivem isoladas nas propriedades rurais, distantes da sociedade e em contato com a natureza. Essas pessoas são quase selvagens e o sentimento delas também. A paixão desenfreada de Heathcliff por Catherine ou de Drácula por Mina não poderia existir nos salões ingleses com seus passos sincronizados e gestos medidos. A estupidez, a raiva, o ódio, a vingança, a paixão indomável são características do selvagem que ainda habita o homem e a porta de entrada para o demônio.

domingo, 18 de julho de 2010

O prazer sem desculpas

Não há nada de filosófico em Fanny Hill (de John Cleland, publicado em 1749). Apenas descrições cansativas, repetitivas e cheias de detalhes sobre as aventuras sexuais de sua protagonista. O autor não tem a pretensão a qualquer análise ou crítica a sociedade da época. Não há conflitos psicológicos em seus personagens – não são figuras complexas. Não há sequer uma trama bem construída. É uma sucessão de experiências sexuais com um final feliz e moralmente correto. O que retirar do livro, então?

Uma clara separação entre sexo e amor. A certeza de que o sexo está relacionado aos artifícios da imaginação, a idade e aos acasos. Também que as circunstâncias podem favorecer uma vida libertina, independente da personalidade e da educação do indivíduo. Por que o livro escandalizou tanto quando foi publicado, sendo sua publicação proibida nos Estados Unidos até 1966?

Porque fala da sexualidade feminina em si, sem nenhum atenuante. No livro, as mulheres não são vítimas dos jogos de sedução ou de qualquer armadilha. Não é pela força ou por imposição da sociedade que são levadas para cama. Também não são enganadas por fantasias de amor de cavalheiros galantes. O desejo da mulher, neste livro, está dissociado de qualquer norma social ou imposição – ele acontece por homens de classe social mais baixa, por idosos, por sexualmente pervertidos... E não é por caridade ou dinheiro que a jovem Fanny e suas amigas se entregam a orgias com todos esses tipos, mas puramente por prazer.

Talvez por isso escandalizasse tanto. Por descrever a sexualidade feminina e defender que o sexo não inclui necessariamente o amor. Pode até acontecer, mas será uma feliz coincidência.

Termino de ler Fanny Hill e parto para "O Sofá" de Crébillon Fils. Também um romance libertino, publicado em 1742.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

O amor e o pudor em Stendhal



O amor é o milagre da civilização
Stendhal


Terminei de ler o Vermelho e o Negro e deveria voltar aqui para comentá-lo, conforme prometi. Mas preferi adiar um pouco e fazer uma comparação com outro livro do autor, Do Amor. Nessa obra, Stendhal teoriza o que exemplificará na literatura.

O amor para Stendhal é um artifício da imaginação, uma construção mental, criação que faz vítima seu próprio autor. Ora ele o chama de loucura, ora diz que é como uma febre que nasce e morre sem a interferência da razão.

Para Stendhal, o amor não era um sentimento natural e presente em qualquer momento da história da humanidade. Em Do Amor, ele repete que camponeses e selvagens, preocupados com a necessidade imediata da sobrevivência, jamais o experimentaram. Ele era resultado da refinação dos costumes, da delicadeza dos prazeres, das horas de lazer e solidão que a vida na corte propiciava. A distância social e a formalidade a que os nobres estavam sujeitos facilitavam os jogos de conquistas, os flertes  e a construção de uma imagem idealizada do ser amado. A partir de pequenos detalhes, o amante projetava qualidades que a pessoa sequer pensou em aparentá-las. A esse processo ele chamou de cristalização –   como cristais que depositados sobre as folhas de uma árvore lhe dão outra forma em nada parecida com a original.

Ele explica que os “jogos de corte” não apenas criavam condições ideais para os arroubos da imaginação, mas que a união ou apenas a proximidade com nobres ensejava oportunidades sociais e políticas raras: “Não havia cortesão que não sonhasse com a fortuna rápida de um Luynes ou de um Lauzun, e mulher amável que não visse em perspectiva o ducado da madame de Polignac” (Do Amor, 2007:21). Assim, a possibilidade de ascensão social ou de subverter as regras sociais, que limitavam o contato entre indivíduos de classes sociais diferentes, funcionava como uma espécie de atrativo ao amor.

Na visão de Stendhal, o amor é o resultado de uma vida social que favorece a imaginação, mas também da dissimulação e repressão dos sentimentos. Porque o nobre não podia simplesmente expressar seu desejo, ele precisava cumprir todo um ritual de conquista  que o tornava vítima de seu próprio jogo. Segundo Stendhal, a vida na corte exigia, principalmente da mulher, que dissimulasse suas emoções. Quanto mais altiva e distante ela fosse, melhor transmitiria a imagem de pudor, elegância e sofisticação. Daí Stendhal dizer que o pudor é a mãe do amor.

A conduta regrada da dama fixava uma distância do cavalheiro, que o levava a imaginar suas qualidades em lugar de experimentá-las. O amor era assim a sublimação do desejo? Não afirmaria isso, mas sim que o amor era o resultado da sublimação das emoções, de qualquer emoção um pouco mais exaltada e desmedida: alegria, tristeza, ansiedade...

“O Vermelho e o Negro” é uma exemplificação de toda a teoria de Stendhal. Julien Sorel e Mathilde nunca estão certos do que sentem um pelo outro. Ora estão possuídos por um sentimento maior que a razão e contra o qual não podem impor qualquer resistência, ora simplesmente esqueceram o que sentiam há uma hora. O menor detalhe destrói a imagem do ser amado, assim como o menor detalhe é suficiente para construir uma imagem super estimada do amado:

“Mais do que levado pelo amor, ele mesmo excitava sua imaginação. Era depois de perder-se em devaneios sobre a elegância do porte da srta. De La Mole, sobre o gosto excelente de seus trajes, sobre a alvura de sua mão, sobre a beleza de seu braço, sobre a disinvoltura de todos os seus movimentos, que ele se sentia apaixonado. Então, para completar o encanto, via nela uma Catarina de Médici. Nada era profundo demais ou perverso demais para o caráter que ele lhe atribuía” (O Vermelho e o Negro, 2003:347).

Suas palavras tão francas, mas tão estúpidas, vieram mudar tudo num átimo: Mathilde, segura de seu amor, desprezou-o completamente” (ibidem:380).

A conquista do amante se faz não com claras declarações do que se sente, mas com dissimulações. Em seus ensinamentos, o príncipe Korasoff diz a Julien que para conquistar a orgulhosa Mathilde precisava aparentar o contrário do  que se esperava dele.

Meu interesse na obra de Stendhal não é tanto pelo seu conceito de amor, mas sim em recolher as pistas que deixou sobre o processo pelo qual se deu a “repressão” dos sentimentos na corte francesa do início do século XIX. Me interessa, sobretudo, a descrição que faz da associação entre a dissimulação de qualquer emoção e o status de classe social. A dama da corte não poderia simplesmente declarar seu sentimento, precisava aparentar certo orgulho, desprezo e distância social. A sofisticação e a distinção associavam-se ao pudor. Também os jogos de sedução faziam parte de um script, eram brincadeiras que divertiam e faziam gastar o tempo da nobreza ociosa e cuja riqueza levava a um sentimento de tédio e fastio.

O que não é possível compreender, considerando apenas a obra de Stendhal, é o percurso completo pelo qual o processo civilizador transformou o ideal do amor, que já foi completamente subversivo, num sentimento regrado e produtivo. Apesar do amor em Stendhal ser um artifício da imaginação, ainda assim é possível identificar elementos de rebeldia no imaginário que o cerca. O que encanta Mathilde em Julien Sorel é a possibilidade de contravenção social, de desafiar as regras sociais ao unir-se a um homem de classe social inferior. Por outro lado, o que despreza é a mesmice de um casamento arranjado segundo interesses puramente econômicos e de status. Se voltarmos a um momento anterior a obra de Stendhal, o amor é um sentimento ainda mais excluído dos espaços instituídos. Tomemos o exemplo de Tristão e Isolda. Ela era uma rainha, que abandona seu título para viver ao lado de um rude cavaleiro e na completa miséria.

Hoje, o amor é um sentimento cujo ápice de sua realização se faz na união estável com filhos e férias anuais. A concretização deste sentimento é o casamento e a família. É preciso entender qual foi o caminho pelo qual domesticamos nossas emoções para que coubessem nos limites estreitos da vida doméstica. Minha hipótese é que precisamos acrescentar às descrições de Stendhal as contribuições da Igreja Católica e do Protestantismo. Assunto para o qual pretendo retornar no próximo post.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Onde estará o amor no século XXI?....

Um amigo postou esta foto no Facebook e resolvi trazer para cá. Fiquei pensando, por que se tornou cada vez mais difícil encontrar namorados aos beijos? Onde eles se esconderam? Ou foram simplesmente embora? Há tantos corações desenhados em camisetas, bonés e agendas à venda nos shoppings, mas menos beijos nas filas do cinema. O cinema era a desculpa para o beijo. Não é mais necessária a desculpa, então por que o beijo? Foram se embora os amantes, esvaziaram as filas dos cinemas, e os gramados das praças também estão desertos. Onde estará o amor no século XXI?


Estou lendo O Vermelho e o Negro de Stendhal. Logo, comentarei aqui. Posso adiantar que nesta obra observamos algumas evidências sobre como era interpretado o amor no início do século XIX. Antes de tudo, ele é um jogo social, por isso a menor atitude pode provocá-lo ou ofuscá-lo. É preciso certa habilidade para controlar palavras e expressões, saber interpretar a troca de olhares e os mais pequenos gestos. É uma linguagem sofisticada pouco acessível a um camponês sem instrução. Também amar é atravessar a fronteira do pecado e entregar-se aos arroubos de uma doença obsessiva. O amor situa-se entre a insensatez e o crime, por isso não há um espaço instituído para ele na sociedade do início do século XIX.

domingo, 23 de maio de 2010

Do amor clandestino ao amor civilizado


Quando uma relação de amor se encontra no seu apogeu, não há margem para qualquer interesse no mundo circundante; o par de amantes é suficiente em si e para si mesmo, não necessita sequer do filho que têm em comum para fazê-los felizes”, sentencia Freud em O Mal- Estar na Civilização. Para ele, nenhuma civilização é possível sem um mínimo de repressão dos instintos sexuais primários, mas nessa obra Freud acrescenta mais um problema a ser investigado. Não é apenas a busca ilimitada pelo prazer que é impossível na cultura civilizada, também a satisfação de Eros, a plena identidade entre os indivíduos. Levado ao seu extremo, a união dos amantes não contribui para a reprodução da sociedade, pois o casal não tem necessidade sequer do filho para completá-lo. Assim, a cultura leva inevitavelmente à repressão sexual, mas também dos laços emocionais extremos. O indivíduo se disciplina não apenas em seus impulsos sexuais, mas  o desejo para amar, odiar, alegrar-se ou entristecer-se.

Freud não fundamentou empiricamente suas afirmações e categorias de análise: ego, id e superego. Podemos dizer, sem sermos injustos, que foi Nobert Elias, em O Processo Civilizador, que construiu uma fundamentação histórica para essas categorias, demonstrando de que forma a sociedade caminhou para maior controle do indivíduo sobre suas pulsões, instintos e sentimentos. No entanto, as descrições históricas de Nobert Elias concentraram-se principalmente sobre como o indivíduo moderno civilizado modificou seus hábitos alimentares e fisiológicos, refreou a expressão de suas vontades primárias, adquiriu um controle automático sobre sua conduta. Os dados empíricos que ele levanta se limitam a descrever mudanças nas normas de condutas sociais. Sua narrativa não aprofunda como o mesmo processo disciplinar aconteceu em relação aos sentimentos.

Nobert Elias diz que o amor é uma sublimação de instintos primários, que passa a existir no momento em que as vontades sexuais em relação ao outro não podem ser imediatamente satisfeitas. Na Idade Média, os cavaleiros tinham menor controle sobre suas paixões e podiam expressar abertamente seus impulsos violentos e sentimentos de alegria e dor. A interdependência na sociedade da corte européia levou o indivíduo a maior vigilância sobre sua conduta. O campo de batalha foi transportado para dentro do indivíduo:

“Parte das tensões e paixões que antes eram liberadas diretamente na luta de um homem com outro terá agora que ser elaborada no interior do ser humano. As limitações mais pacíficas a ele impostas por suas relações com outros homens espelham-se dentro dele; um padrão individualizado de hábitos semi-automáticos se estabeleceu e consolidou nele, um “superego” específico que se esforça por controlar ou suprimir-lhe as emoções de conformidade com a estrutura social” (Nobert Elias, O Processo Civilizador, vl 2, pag. 203).

Embora enunciado por Nobert Elias, o processo de repressão dos sentimentos, de autocontrole automático sobre as paixões não está historicamente descrito. É preciso narrar o processo pelo qual o amor deixa de ser clandestino e torna-se um sentimento bem comportado no seio da família nuclear burguesa.

Nos primeiros anos do cristianismo, o sentimento entre homem e mulher não era abençoado pela Igreja e até mesmo o casamento era considerado uma forma de adultério. Não constituía um caminho para a vida cristã e, por essa razão, não era um sacramento. O cristão a ser agraciado com a salvação era aquele capaz de renunciar completamente ao mundo. Como a castidade era uma qualidade de alguns poucos eleitos, a Igreja não exercia controle rigoroso sobre o comportamento de seus fiéis e sacerdotes. O celibato figurava como ideal somente para aqueles que se entregassem completamente a vida cristã e que fossem abençoados por Deus. Sozinho, por seus próprios meios, o homem não conseguia renunciar aos prazeres do mundo:

Quem deseja ser casto, deve recorrer ao Senhor e instar-lhe fervorosamente em oração, para que se digne de conceder-lhe esta mercê; porque se ele liberalmente lha não der, de nada lhe servirão todos os arbítrios para a conseguir (A mocidade enganada, desenganada: (...), Manoel Conciencia, Officina Augustiniana, Lisboa, 1730).

A partir de Gregório VII, a Igreja passa a defender o celibato para os sacerdotes e o casamento como uma concessão para o homem comum. Todos devem buscar uma vida casta e moderada. O casamento torna-se o espaço onde a relação sexual pode se realizar desde que observada uma série de prescrições: não ser parente até o quarto grau, respeitar os dias santos... A partir do momento em que o casamento se torna um sacramento, ele se legitima por outras razões que não apenas aquelas de interesse econômico: precisa contar com o consentimento mútuo, ter por fim a criação e educação dos filhos e estar baseado no sentimento de solidariedade e ajuda mútua. São conteúdos que dão ao casamento uma santificação, que até então não possuía. No entanto, não é o amor o sentimento básico do casamento no final da Idade Média, mas sim o sentimento de caridade. Esse é o início de um processo para tornar um sentimento que tinha sido sempre clandestino, conforme descrevi em outros posts, para ser o que legitimará a união do casal.

No entanto, a extensão do celibato para todos os membros da Igreja e do casamento como um celibato de menor grau a todos os laicos é lento e sofre fortes críticas e protestos mesmo dentro dos quadros da Igreja. A sociedade da corte ainda é muito libertina e os nobres colocarão forte resistência a regulação da Igreja Católica sobre o casamento, principalmente, porque interferia nos seus interesses de transmissão de herança.

Maior controle sobre as pulsões sexuais e o casamento como devendo ser acompanhado de um sentimento e não apenas de cálculos utilitários é resultado de uma cultura protestante burguesa que irá ascender na Europa e que busca se distanciar dos nobres em seu estilo de vida. Também decorre de maior liberdade que o indivíduo moderno adquire para a construção de sua identidade. O sentimento de amor está relacionado ao processo de individuação, pois significa o aproximar-se do outro por afinidades (valores, condutas, padrões estéticos e ideais) e não em resposta aos interesses familiares.

É essa narrativa histórica, descrita aqui de forma muito fragmentada e resumida, que é preciso ser feita dando conta do processo pelo qual a formação da sociedade moderna também foi acompanhada pela repressão dos sentimentos e da sua condução para a forma bem comportada do casamento.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

O romance de Tristão e Isolda


Apesar de trair seu pai adotivo e assassinar quem denunciou seu amor por Isolda, Tristão não vive nenhum drama psicológico por isso. O casal sofre por não encontrar condições ideais para vivenciar seu sentimento, mas não possui nenhum pesar em arquitetar mil artimanhas para enganar o pobre rei Marc. A lenda de Tristão e Isolda data do século XII e nela podemos encontrar evidências do que falamos em outros posts sobre a problematização do amor.

A culpa do casal é perdoada porque foi vítima de uma bebida mágica. A mãe de Isolda quis ajudar a filha a se apaixonar por seu futuro marido. Preparou uma porção e confiou a criada que fizesse os noivos tomarem antes da noite nupcial. “Os que a beberem juntos amar-se-ão com todos os seus sentidos e com todo o seu pensamento, para sempre, na vida e na morte”, explicou a mãe de Isolda. Por acaso, Isolda bebe a porção junto com Tristão e não com o rei Merc.

A bebida mágica tem muita semelhança com a figura do Cupido, nos dois casos o amor é uma fatalidade que não deixa nenhuma margem de escolha aos amantes. Não é um sentimento humano, mas uma capricho da vontade divina. Porque os amantes não têm escolha, não possuem culpa sobre o que fazem para ficar juntos. É como se estivessem possuídos por uma idéia obsessiva, por uma doença que os impede de pensar melhor e pesar suas atitudes. Por essa razão, Tristão repete, em defesa de sua inocência, que nunca havia amado a rainha com “amor culpável”. No seu entendimento e de quem descreve a lenda, ele é completamente inocente.

Tristão e Isolda são vítimas de um sentimento que os domina e que os expõe a viver uma situação para sempre inviável e por essa razão, infeliz e angustiante. A criada de Isolda lê para o casal a sentença a que estariam sujeitos para o resto da vida: “... o caminho é sem retorno, a força do amor já vos impele, e nunca mais tereis alegria sem dor”. A lenda repete o que pode ser lido textualmente em outros textos do período – como em “Tratado do amor cortês” de André Capelão -, que o amor está restrito a uma posição marginal na sociedade. Não pode existir no casamento, tampouco ser exibido nos círculos sociais. Ele existe a noite, entre amantes, sabido apenas por seus confidentes.



O único momento em que Tristão e Isolda ficam juntos, é quando fogem e se escondem na floresta que circunda o palácio. No entanto, amargam uma vida miserável. Vivem da caça, emagrecem, vestem roupas rasgadas, dormem ao relento. Embora estejam juntos não conseguem experimentar felicidade em sua união. Como sentenciou a criada de Isolda: “Bebeste o amor e a morte”.

Tristão e Isolda são vítimas do capricho divino, das restrições da sociedade, de um sentimento que é quase uma doença. Cometem, em defesa do que sentem, inúmeras infrações, no entanto, permanecem inocentes, pois foram escolhidos pela vontade superior a experimentar para o resto da vida e talvez da morte- pois são enterrados juntos –, um amor que os escraviza. Apesar de seus crimes não são culpados. A própria sociedade sai em defesa deles quando são sentenciados pelo rei Merc a serem queimados vivos.

Porque não há culpa digo que não há problematização do amor. Questionará o leitor: "Não é suficiente tudo que o casal passou? Não são problemas?" Sim, experimentam vários problemas, mas não existe a culpa. Eles não reprimem o que sentem, não são recriminados pela sociedade, não são condenados pela religião, não lutam para que o sentimento exista na vida doméstica, nos canais formais. O amor está fora da sociedade e por conseqüência seu amantes não sofrem o peso da sociedade. O amor nesta lenda é pagão, é desleal, é traidor, não tem limites.

Nossa sociedade moderna reinventou o amor bem comportado com “sabor de fruta mordida”. Mas de vez em quando o amor de Tristão e Isolda reaparece com toda a sua violência nas páginas policiais da grande Imprensa.

sexta-feira, 12 de março de 2010

O que está proibido é o desejo sexual

É uma evidência do narcisismo assexualizado da sociedade brasileira contemporânea a censura ao comercial da Devassa. Tomei conhecimento do caso pelo blog do publicitário Lenadro Wirz (mardecoisa.blogspot.com) e resolvi comentá-lo aqui, onde o espaço é maior. A pergunta imediata que ocorre é por que? Por que censurar um comercial que é semelhante a cem mil outros comerciais de cerveja? Mulher bonita e quase pelada, cerveja gelada, um bando de homem embasbacado, qual a novidade? Por que o comercial da Devassa é mais ofensivo a imagem da mulher e estimula, mais que os outros, o consumo excessivo de álcool? Implicância pura e simples do Conselho Nacional de Autorregulação Publicitária?

Creio que não. Há um elemento nesse comercial que o faz diferente dos outros: fala de uma mulher que é sensual, que estimula a imaginação e seduz aqueles que a observam. Transeuntes, vizinhos e até mesmo duas mulheres param para olhá-la. Ela se sabe observada pelo fotógrafo do prédio em frente e insinua-se esfregando-se no vidro, enquanto a lata gelada escorrega pelo seu corpo. Na fotografia que interrompe o filme, há desejo em seu olhar. Paris Hilton, atriz que interpretada a personagem, está até mais vestida que outras loiras de comerciais de cerveja. Acontece que nos outros comerciais, as loiras são apenas bonitas, nuas e inatingíveis. A cerveja só uma bebida.

Corpos dourados não transmitem, necessariamente, apelo sexual. Na televisão brasileira, não há nada mais comum e explorado que a nudez em todas as cores. Diria mesmo que ela já não provoca nenhum impacto. O que causou a reação dos censores foi o apelo sexual do comercial. Isso é uma evidência de que, embora jornais, revistas e televisão divulguem diariamente imagens de corpos perfeitos, não é a sexualidade o que desejam despertar. Trata-se apenas de um padrão de beleza aceito e explorado como produto. Quem persegue esse padrão também não visa atrair alguém, não é o desejo o que está em jogo, mas uma pura e inocente exibição narcísica. Do contrário, os outros comerciais, desde o banho das atrizes globais no comercial do Lux de Luxo até personagens de grifes infantis deveriam ser censurados. O que causou estranhamento no comercial da Devassa não foi a loira bonita e quase nua, foi a sua sensualidade. O que está proibido é o desejo sexual.

Agora imagine, caro leitor, quantos potes e potes de cremes dermatológicos são produzidos, quanto de fortuna não fazem as incontáveis clínicas de cirurgia plástica, sem contar o que se produz de roupas coladas a micro biquínis, tudo isso apenas para satisfazer nosso narcisismo e o jogos narcisistas em que nos envolvemos diariamente. Como diria Foucault, “o poder no Ocidente é o que mais se mostra, portanto o que melhor se esconde” (Microfísica do Poder, 2003:237). Parece que tudo esbanja sexualidade, desejo, juventude e prazer; mas estamos apenas consumindo esses valores. Podemos não ir além da aparência. Não faremos mais sexo, ou experimentaremos paixões, ou nos encontraremos com nossos impulsos e vontades. Podemos ficar satisfeitos com os potes de creme e parar por aí.

É isso que a indústria de estética deseja? Não creio. Concordo com Foucault quando diz que o poder não é um ator unificado com uma ação orientada para perpetuar-se. O poder está assentado em micropráticas cotidianas que têm como efeito tornar o corpo mais dócil. Todavia, o poder não é hegemônico, está sujeito a constante microcontestações e pode ser subvertido a qualquer momento.

quarta-feira, 10 de março de 2010

O narcisismo contemporâneo e a sexualidade


Não há amor sem individualidade. A afirmação parece óbvia e pressupõe o absurdo que alguém possa existir sem ser uma individualidade. Não é óbvia nem absurda. Somente para as sociedades ocidentais contemporâneas parece evidente que a toda pessoa corresponda uma individualidade. A Idade Média, por exemplo, é uma época em que os espaços para a construção da individualidade são restritos. A identidade do indivíduo é a família a que pertence, qualquer perda de prestígio e de poder que a família sofra, o afeta diretamente, não apenas em suas relações econômicas, mas também pessoais.

Quando ele pergunta quem sou eu, olha sobretudo para o passado de sua família, seu prestígio, suas propriedades e seus valores. O indivíduo está preso numa rede de relações que fixa seu futuro, sua profissão e com quem deve casar-se. O que o une o casal são deveres familiares e não afinidades ou afetividades. “Um casamento vantajoso eleva a posição do marido e a dos membros de sua linhagem: conserva-se preciosamente seu traço nas genealogias ‘casa’” (Dominique Barthélemy, A vida privada nas casas aristocráticas da França feudal, 2009:129). O amor, na Idade Média, só é possível fora do casamento, como um sentimento pagão e marginal. O amor cortês dos trovadores não existe no matrimônio, desenvolve-se nas relações extraconjugais. É vivido principalmente pelos jovens cavaleiros excluídos do direito de contrair casamento - direito restrito ao primogênito. Sendo assim, o amor é uma contravenção, uma insubordinação contra as regras familiares e religiosas e, portanto, um exercício de individualidade.

A comparação com a sociedade medieval é interessante, pois ela é o oposto do mundo que experimentamos. Se a Idade Média é um período em que o indivíduo tem pouca liberdade para fazer suas escolhas e vivenciar experiências fora das regras familiares e religiosas, no mundo atual há uma exacerbação da individualidade para o extremo do narcisismo. Não que o indivíduo contemporâneo tenha sido esvaziado de suas raízes culturais, mas os parâmetros de sua identidade são cada vez mais estéticos e de consumo. Não sei exatamente quais são as consequências sobre as relações amorosas, mas acredito que há um abandono da sexualidade, uma impaciência com o jogo amoroso em favor de outras realizações que traduzam status e poder.

Encontrei evidência empírica disso. Não é bem uma evidência, mas um indício. Na pesquisa que Datafolha realizou, 10% dos casados disseram que não fazem sexo. Desses, 25% têm entre 25 a 45 anos, ou seja, estão numa idade que seria de plena atividade sexual. Interpretando o caso, a terapeuta Tai Carvalho disse: “Fico perplexa com a quantidade de casais que trocam o sexo pela relação com o consumo, o trabalho, a boa forma, as conquistas materiais. Estão atrás de viagens, da reforma da casa, da escola para os filhos. Esse é o erotismo deles” (Folha de S. Paulo, 21.02.2010). Acho 25% de 10% um universo muito pequeno para qualquer afirmação, mas nos incita a pensar se há ou não uma migração do desejo sexual para outras realizações, se não seria reflexo de um extremo narcisismo.

O jornalista comenta que num País sensual, o jovem abriu mão da sexualidade. A aparência de corpos dourados comunicam sensualidade, mas também podem ser sinônimos de narcisismo, que é justamente o oposto de sexualidade. Observo que ocorre um crescimento das academias, das clínicas de dermatologia, das cirurgias estéticas, dos cremes rejuvenescedores e mesmo de objetos de consumo que traduzem jovialidade. Queremos fazer mais sexo em função disso? Creio que não. Estamos apenas preocupados com o que vamos encontrar no espelho e o sentido do que vamos transmitir nos grupos que participamos. A velhice não é um atributo desejado e valorizado em nossa sociedade. Tem um peso não apenas nas relações individuais, mas mesmo nas profissionais. Ser jovem e bonito é também ser bem sucedido. Associação absurda, mas muito natural nos dias de hoje.

Volto a falar sobre individualidade e amor num próximo post.

quinta-feira, 4 de março de 2010

O suicida e o homicida



Nelson Rodrigues afirmava que havia apenas dois tipos de pessoas: o homicida e o suicida. Disse só isso, não teorizou sobre o assunto, mas como sempre fazia repetiu mil vezes a mesma afirmação. Tinha certeza do que dizia.

Fiquei grilada: exagera. Deve haver gradações entre esses extremos. Mas se há apenas dois tipos, quem é o homicida e quem é o suicida?

O suicida não tem medo e o homicida só mata por medo. Ele não é o assassino, uma aberração desse tipo, mas possui ainda o medo do animal que investe com uma gana feroz sobre a presa como se a odiasse. Por medo ataca antes de ser atacado. Observo isso no cachorro, é capaz de matar alguém que sequer  vê. Simples medo.

O homicida gosta de viver e gostaria que sua vida fosse longa, previsível e presumível. É um tipo que quer segurança, família, emprego estável, salário no final do mês. É o bancário, funcionário público, contador, administrador, burocrata. Já o suicida é o contrário. Para ele a vida só tem sentido se for vivida em seus extremos: amor com paixão e sexo, esportes radicais, trabalho criativo, longas viagens sem destino... Não tem paciência para fazer sempre o mesmo trabalho, beijar a mesma mulher e ter horários. É o amante não o marido. É o argonauta. Para ele, “navegar é preciso, viver não é preciso”.

Dirá o leitor que estou atraída pelo segundo tipo de ser humano. Engana-se. Penso mesmo que nesses personagens, inventados por Nelson Rodrigues, há o melhor do ser humano. Como se fossem dois instintos básicos que ainda permanecem apesar de todo o processo civilizador.

A virtude do suicida é o risco e não existe vida sem um mínimo de risco. Podemos minimiza-lo, mas jamais eliminá-lo. No homicida, a coragem e a persistência. Como é possível construir uma casa, uma empresa, uma sociedade sem coragem e persistência? Desse lado estão todas as pessoas que se dedicam, apesar de todas as diversidades, a recomeçar todos os dias e são elas que vão aos poucos deixando realizações. Para elas, o ideal que atrai é o da igualdade. Do outro lado, os apaixonados e conquistadores. São eles que vão para o espaço, que atravessam oceanos, que estão na linha de frente de qualquer exército. São os desbravadores, os sertanejos que abrem a mata fechada para fazer passar o trem e a estrada. Seu ideal é a liberdade.

Penso que Nelson Rodrigues concordaria comigo. Não tinha preferência por nenhum dos personagens. Era seu interesse as duas modalidades de tragédias: o que mata por amor e o que é capaz de morrer por amor.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

A estranha associação entre felicidade e realização

Me surpreendo com a estranha e constante associação entre felicidade e realização na sociedade atual. O problema não é que tendo prosperado nos negócios e na profissão, naturalmente, o indivíduo se sinta feliz. Mas sim, que haja uma necessidade de evidenciar a felicidade independente das adversidades que a vida possa trazer. Veja a revista Caras. Passo as páginas e fico surpresa de não ter uma única foto onde a pessoa pelo menos não esteja forçosamente sorrindo. Um único rosto sem sorriso, não tem. Até falando da morte, os ricos e famosos sorriem.

Na minha juventude, ser feliz era como ser cínico. Vivíamos uma crise existencial constante sobre o sentido da vida e a pobreza da política nacional. Como era possível ser feliz, enquanto a maior parte da população brasileira passava fome e vivia na miséria? Como era possível contentar-se com uma casa e um carro, enquanto o país vivia uma ditadura civil que limitava as liberdades individuais? Era evidente a impossibilidade de ser feliz sem liberdade. Só a pequena burguesia se bastava com o crescimento econômico. Os intelectuais e a esquerda brasileira tinham orgulho da tristeza ou no mínimo da depressão ébria. Além do pensamento marxista que ainda inspirava a juventude brasileira nos anos 80, havia o existencialismo de Sartre: o homem está condenado à liberdade e por essa razão, há uma dúvida existencial da qual não pode fugir. Em suas menores escolhas, ele participa da definição do que é ser humano e é necessariamente infeliz por ter que escolher sem parâmetros.

Para mim, havia um exagero grotesco naquela proposital infelicidade, porque mesmo aqueles que não amargavam nenhuma dor pelas razões antes citadas, eram infelizes na aparência. Ser infeliz tinha um ar de intelectualidade e inteligência. Hoje invertemos os pólos.

Ser feliz é sinônimo de realização e infeliz de incompetência.

Feliz é aquele que conquistou tudo que a vida moderna contemporânea oferece como oportunidade: emprego estável, carreira brilhante, carro do ano, apartamento de cobertura, grifes famosas, viagens internacionais... E o infeliz é aquele que não teve nada disso. Duas questões são injustas nessa narrativa: a eliminação do acaso e dos condicionantes sociais, e a falsa idéia que o possuir é suficiente para resolver nossas questões mais íntimas e existenciais. Trocando em miúdos, a falsa idéia de que o consumo traz felicidade.

Se uma máquina do tempo trouxesse um indivíduo do século XII – XV para hoje, ele acharia absurdo que as pessoas fossem responsabilizadas por sua infelicidade. Maquiavel, que escreveu nesse período, atribuía a prosperidade do príncipe em parte a sua habilidade política e suas escolhas, mas pelo menos a outra metade a sorte e aos acasos:

“...Creio que se pode admitir que a sorte seja árbitro da metade dos nossos atos, mas que nos permite o controle sobre a outra metade, aproximadamente. Comparo a sorte a um rio impetuoso que, quando enfurecido, inunda a planície, derruba casas e edifícios, remove terra de um lugar para depositá-la em outro” (Maquiavel, O Príncipe).

Penso que essa arrogância feliz tenha a ver com o momento em que vivemos, onde tudo parece possível. Foi capa da revista Superinteressante que a próxima geração conhecerá a imortalidade. Imagina, agora que proclamamos a imortalidade, o que falta?

Mas essa é só uma face do presente, a outra remete ao consumismo. A possibilidade de adquirir tudo que necessite e mais o supérfluo remete a conclusão de que não há o que reclamar. Que problema pode ter o indivíduo que pode comprar tudo que seus olhos alcançam, viajar para todos os lugares, que possui um emprego ótimo? Que podendo produzir-se com as melhores grifes com certeza também irá conquistar o grande amor de sua vida? Qual é o problema? Só aquele que não pode consumir, por sua incompetência e falta de inteligência, está relegado a sofrer.

Se a geração dos anos 80 exaltava a dor existencial até quando não a compreendia, a atual a eliminou por completo. Podemos sofrer por não ter o que comprar, por não ganhar o salário desejado, por não estar no emprego almejado, mas jamais pelo sentido da existência.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A problematização do amor






Depois de sofrer muito por um amor não correspondido, notei que eu adorava a pessoa com sentimentos e valores muito próximos aqueles vindos da Igreja Católica. Foi a primeira vez que suspeitei existir uma confusão e que eu era a própria vítima dessa confusão.


O imaginário que cerca o conceito de amor tem algumas regras estranhas: a) Desejar a felicidade do outro mais que a sua própria felicidade; 2) Colocar a realização sexual em segundo plano; 3) Ser companheiro do outro qualquer que seja a situação; 4) Substituir ao longo do tempo a paixão por sentimentos mais constantes e amenos. Há outras regras, mas note que em todas elas há um elemento em comum: a renúncia a vontade pessoal em favor do outro. Ora, não há nada mais cristão que isso!


Não acredito que as pessoas sempre amaram segundo essas regras, houve um momento em que elas ganharam o status de verdade. Então, eu quis entender como isso aconteceu.

De todos os livros que eu li até o momento, um foi muito esclarecedor: “O amor cortês” de André Capelão. Escrito no século XII, ele deixa claro como o amor era um sentimento pagão, exterior ao casamento e que estava presente principalmente nas relações clandestinas. O amor só era possível entre amantes, não comportava longas durações, não incluía a fidelidade, não tinha nenhum objetivo produtivo, como ter filhos ou comprar uma casa. O amor era um sentimento efêmero, tempestivo, incontrolado e sexualizado. Dirá o leitor, era uma paixão. Não, pois não havia divisão entre amor e paixão, essa foi uma invenção posterior da sociedade. O amor era um sentimento incapaz de se comportar nas rotinas estabelecidas e porque era essa sua natureza, as mães não o desejavam para as filhas.


No livro, El Amor en La Idad Media, Jean Verdon recupera o diálogo do cavalheiro La Tour Landry e sua esposa sobre a atitude que devem adotar as jovens diante do amor - o texto é de 1371. O cavalheiro sustenta que a donzela ou a dama pode amar em algumas situações honráveis, como por exemplo, quando espera casar-se ou quando está casada. A mãe discorda, preferem que não amem, pois é pecado amar um homem mais que a Deus ou ter uma relação extraconjugal. Ela não admite a possibilidade da mulher amar o seu próprio marido.


Na idade Média, esse raciocínio não é absurdo. Era clara a dificuldade de existir amor entre o casal, pois os casamentos eram contratos arranjados. Interesses políticas e econômicas das famílias definiam as uniões. As mulheres se casavam muito jovens, aos doze anos, com homens muito mais velhos. A família interessava preserva a honra da donzela, mais que se preocupar com sua felicidade, pois ela era um bem de troca. Um bem que depois passava a ser do marido a quem estava completamente subordinada. Na cultura medieval, aceitava-se que o marido corrigisse a esposa, por isso eram constantes as agressões a mulher. Além disso, o casamento era um contrato com toda a racionalidade própria de um contrato. Especificava-se, no caso das famílias burguesas, por exemplo, a obrigatoriedade do marido de ensinar sua profissão ao enteado.


Tudo muda de configuração quando a Igreja Católica sacramentaliza o casamento, no século XII e XIII – o mesmo momento em que Foucault identifica uma mudança no mundo religioso em relação à penitência e confissão. A Igreja faz uma reorganização da casa (história que contarei numa outra data) e estabelece o casamento como uma forma de celibato de menor grau, um caminho para a ascensão a Deus, de renúncia ao mundo e de exercício dos valores cristãos. Para Santo Tomás de Aquino, a associação do homem e da mulher, mesmo quando não tem como objetivo a procriação, pode ser abençoada, desde que união das almas preceda a união dos corpos. Ao casar-se, homem e mulher se tornam um só corpo e por essa razão não há pecado na relação sexual. No entanto, para que essa união seja legítima e abençoada, é preciso que seja espontânea, que exista um sentimento recíproco.


Veja que nesse momento, o amor entra no casamento, mas não sem alterar o seu conteúdo. Não são mais interesses econômicos e políticos, não são desejos sexuais, mas o amor que torna-se o fundamento do casamento. Não o amor no sentido que Capelão dava ao termo, não o amor clandestino, pagão, sexualizado, impulsivo; mas o amor fraternal, desprendido, de solidariedade e de caridade. É nessa hora que a Igreja Católica problematiza a relação a dois. Ela não pode mais ser um contrato econômico, não pode acontecer entre parentes próximos, deve envolver o mútuo consentimento, deve vir acompanhada de um sentimento de desprendimento, não deve visar a realização sexual, deve ter como objetivo a procriação e a educação dos filhos.... Ao mesmo tempo em que a Igreja cria todas essas exigências ao casamento, essa instituição se torna uma área de sua jurisdição. Só ela estava habilitada a tratar os problemas conjugais, a definir quem podia casar-se com quem, a participar da educação dos filhos....


Quais são as conseqüências disso para o homem moderno? Penso que continuamos a tratar nossos relacionamentos com os filtros dos valores católicos. O casamento é um contrato econômico, que dificilmente comporta um sentimento apaixonado. Há rotinas no casamento que exaurem com o desejo sexual e com qualquer fantasia amorosa. O amor é para mim um sentimento que tem o direito de ser pagão. Ele envolve o galanteio, o flerte, o enamorar-se que subordinado a uma rotina e a problemas domésticos, inevitavelmente, esvai-se. A relação a dois há de sempre precisar de um pouquinho de imaginação para valer à pena.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A problematização da sexualidade



A Igreja Católica problematizou a sexualidade ao final da Idade Média, afirma Michel Foucault em História da Sexualidade. A minha tese é que houve também uma problematização do amor. O imaginário que hoje cerca esse sentimento possui associações e projeções que se originaram na Igreja num momento passível de ser identificado e acompanhado.

Vou explicar Foucault para depois retornar a minha tese.

Segundo Foucault, a partir do século XII e XIII, a penitência tornou-se um sacramento. Até então, a Igreja exercia um controle muito frouxo sobre a sexualidade e a penitência era um caminho para a remissão dos pecados, mas de escolha do próprio pecador, uma espécie de autoflagelação: uso de cilício, interdição dos cuidados de limpeza, jejuns rigorosos, castidade...


A reforma nos dogmas e procedimentos da Igreja, torna o padre o responsável por intermediar a absolvição junto a Deus. É ele quem irá prescrever a punição conforme o pecado, e para conhecê-lo será preciso extrair a confissão do fiel.

A confissão, que antes era um ato voluntário e realizado em cerimônias coletivas, torna-se obrigatória para todo cristão e de caráter individual, regular e feita em ambientes reserv ados, diante da figura do padre. Os manuais eclesiásticos descrevem técnicas para extrair o máximo de detalhes sobre a intimidade, desejos e fantasias sexuais dos fiéis. Aos poucos a confissão torna-se a própria penitência:

“(...) Ela é um sacrifício, porque provoca a humilhação e faz enrubescer. Ela provoca a erubescentia. O penitente enrubesce quando fala e, por causa disso, ‘dá a Deus – diz Alcuíno – uma justa razão para perdoá-lo’”( Os Anormais, Martins Fontes, 2001: 219).

Esse é o momento em que a sexualidade para Foucault passa a ser problematizada. O desejo sexual é em si um pecado, que precisa ser vigiado, controlado e disciplinado. A confissão é uma técnica para disciplinar o desejo sexual, que tem início com a Igreja Católica e que se desenvolve na, pedagogia, na psicanálise e na medicina. Somos a única civilização, na opinião de Foucault, que produziu profissionais especializados em ouvir confidências sexuais.


Em História da Sexualidade, Foucault pergunta por que “de repente” um ato tão banal e comum como a masturbação do adolescente se tornou um problema fundamental a ser investigado pela pedagogia e a medicina? Livros e livros foram produzidos para descrever as complicações advindas: doenças, vícios, crimes, etc.


“Dessa forma, ele se tornou, progressivamente, o objeto de grande suspeita; o sentido geral e inquietante que, independente de nós mesmos, percorre nossas condutas e nossas existências; o ponto frágil através do qual nos chegam às ameaças do mal; o fragmento de noite que cada qual traz consigo” (História da Sexualidade – a vontade de saber, 2006:79).

E sobre a problematização do amor? Falarei no próximo post

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

O amor argentino

Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
Em cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente, eu sei que vou te amar
E cada verso meu será
Pra te dizer que eu sei que vou te amar
Por toda minha vida
Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que esta ausência tua me causou
Eu sei que vou sofrer a eterna desventura de viver
A espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida



“Eu sei que vou te amar” na voz de Gabriel Dominguez é diferente de todas as interpretações que já foram feitas sobre essa música. O cantor de Tango transforma a letra de Vinicius de Moraes quase numa sentença de morte. Se não for de morte, de infelicidade, de desventura, de martírio enquanto houver vida. Ouvi-la no Café Tortoni, em Buenos Aires, me fez voltar a minha tese: o amor tem conotações diferentes conforme a cultura.

Mais que isso, até creio que sentimos em maior ou menor intensidade de acordo com o ambiente cultural. Daí procurar não apenas pelo sentido de amar, mas pelas crenças que cercam a relação a dois e que falam sobre como sentir, a quem amar, os gestos, os cortejos e as desventuras. Enfim, reconstruir as narrativas que nos aprisionam em histórias de amor.

Amar para Vinicius de Moraes era quase uma fatalidade e tinha a leveza de quem admite uma situação da qual não pode fugir: “Eu sei que vou te amar por toda a minha vida eu vou te amar” e não há o que fazer a não ser conviver com a falta. Como há um tom de profecia nos versos do poeta, parece maturidade reconhecer os desencontros da vida como constantes inevitáveis.

O argentino prolonga as notas de Tom Jobim e a música se aproxima da ópera. Dessa forma, a ausência da amante condena o cantor de Tango a um martírio incurável e quase insuportável. É uma falta que jamais será preenchida e que se transforma num vício tal qual o cigarro ou a bebida. Há ainda outras diferenças: notou que no Tango, o amor é sempre platônico?

São essas estruturas narrativas sobre o amor, diferentes conforme a cultura e a época, que nos levam a repetir situações e a experimentar conflitos existenciais muito semelhantes aos dos nossos contemporâneos. Não fazemos escolhas novas a cada segundo de nossas vidas, na maioria das vezes nosso raciocínio faz uso de modelos mentais, experiências que se tornaram amplamente aceitas, e que nos dão segurança sobre as decisões tomadas. Por um lado, ganhamos em fazer uso da experiência dos outros, mas por outro, terminamos aprisionados em certos modelos de conduta.

Não é diferente no amor.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Não necessariamente congruentes




Amor e sexo não são itens excludentes, mas não são congruentes. O amor não inspira necessariamente o desejo sexual. É feito de identificações, proximidade de idéias e temperamentos. É desejar ser o outro e até abrir mão de realizações pessoais em favor do ser amado. Embora o outro não seja mais que uma projeção de si mesmo. Não iria além dessa definição. Sentimentos como respeito, solidariedade e altruísmo possuem sua própria singularidade e foram indicados pela igreja como fundamentos para a relação a dois em substituição ao amor-paixão, que ela tantas vezes condenou como adultério. O fato é que acrescentamos ao significante amor tais sentimentos e por conseqüência também ao casamento. Mas não é sobre isso que quero falar, vou voltar a minha tese.

Não por acaso, Nelson Rodrigues criou vária histórias onde o personagem não conseguia manter relações com quem amava. Estão lembrados de “A dama do lotação”? Solange tinha o hábito de arrumar parceiros no lotação. Costumava sair com qualquer desconhecido que estivesse no ônibus, mas não conseguia ter relações com seu marido, embora o amasse perdidamente. Ainda há outras histórias. Como o amigo que confessa envergonhado ter desejado a própria esposa. É nessa crônica que Nelson Rodrigues solta uma de suas frases inesquecíveis: “O amor entre marido e mulher é uma grossa bandalheira. É abjeto que um homem deseje a mãe de seus próprios filhos”.

Para Nelson, havia uma divisão entre sexo e amor. Essa não é uma questão fechada em seus textos. Ora ele acha inconcebível que estejam separados. Ora ele não admite que andem juntos. Para ele, o amor estava no flerte, na conquista, nas horas perdidas. O paulista não podia amar, pois pensava em trabalho 22 horas por dia. E “o amor é a arte do lazer”. Também um homem antes dos 30 anos não era capaz de amar, pois antes dessa idade um homem sequer sabia cumprimentar uma mulher. E o amor estava no galanteio, na conquista: “Para o homem, o amor não é gênio, nem talento e sim tempo, métier, sabedoria adquirida”.

Mas em outros momentos, o amor para ele é a identificação que de tão completa torna o objeto amado uma projeção, como o santo é uma projeção dos sentimentos, valores e condutas ideais. É por essa razão, que para ele amor e morte eram próximos. Só aquele que ama, afirma Nelson Rodrigues, tem coragem de morrer de peito aberto: “quem nunca desejou morrer com o ser amado, não amou, nem sabe o que é amar”.

Nas duas situações apresentadas, o amor exclui o sexo. Na primeira, porque se trata de um amor platônico, que tende ao simples galanteio. No segundo caso, porque o amor é quase uma causa, pela qual se vive e morre. Nas duas situações, o objeto do amor é uma idealização, não há a proximidade necessária entre os amantes para que o desejo sexual aconteça.

Estou com Nelson Rodrigues. Ás vezes até acho que o amor inviabiliza o sexo. Quantas vezes amei sem desejar em nenhum momento sequer tocar na pessoa...

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Casamento e seus itens excludentes



Pretendo escrever um livro, quando tiver tempo e coragem, sobre casamento. Por enquanto, apenas vou escrever esse blog. Meu objetivo é explicar, historicamente, que acrescentamos à instituição qualidades que não tinha no passado e que são naturalmente excludentes. O casamento é antes de tudo um contrato econômico: duas pessoas vão vender e comprar bens, dividir contas, definir prioridades financeiras, somar esforços ou amargar juntos a carência decorrente dos seus infrutíferos esforços. Tudo isso já é suficiente para dificultar qualquer relação. Como é possível ser apaixonado e desejar fazer sexo com a mesma pessoa que você divide problemas econômicos e que, às vezes, é a própria causa de seus problemas econômicos?

No passado essa era uma questão resolvida. A mulher não era sócia do homem. Ela não ia para o mercado de trabalho para pagar as contas da casa. Era gestora de assuntos, que o homem não participava: administração da casa, educação dos filhos, recepção dos convidados, organização das festas familiares, etc. Já o homem se ocupava de assuntos que não precisava discutir com a mulher: o mundo dos negócios, as dívidas do casal, as aplicações futuras, etc. A divisão do trabalho entre os sexos era harmônica e isso garantia uma certa redução dos conflitos. Hoje, tudo mundou, o homem faz sexo com sua sócia e vice-versa.


Mas há outros itens excludentes, continuo a falar sobre o assunto.

domingo, 10 de janeiro de 2010

O amor como doença



Difícil acreditar que em algum momento tenhamos comparado o amor-paixão a uma doença, chegando mesmo a prescrever remédios. Mas isso aconteceu. Em textos de confessores dos séculos XVII e XVIII, o amor é uma doença relacionada ao pecado e o casamento uma espécie de remédio para a alma.

As paixões são enfermidades do espírito refletidas no corpo: febres, infecções, tristezas, melancolias, pulsações alteradas, tísicas, lepra, loucura, etc. Francisco de Mello Franco, em Medicina Theologica ou Súplica Humilde, diz claramente “Não se pode excetuar do catálogo das enfermidades o amor" (1794: 38). Para ele, as principais vítimas são aqueles de temperamento dócil, as moças, os celibatários, os jovens rapazes, os de educação branda e os ociosos.

"Este amor geral quando se aplica com força a seu objeto, é na verdade grande doença, que produz não só a loucura, mas também uma infinidade de males que os físicos, e moralistas têm conspirado numerar, e não tem podido. Produz o amor a loucura, porque originando-se esta da decomposição das fibras nervosas, que entram na textura do cérebro, e esta decomposição provindo da ____ atenção, que se dá a qualquer coisa, vem a ser certo que o amor causa esta loucura; porque ele é o que fixa o pensamento sobre o objeto amado, decompõe a fábrica interior do cérebro, levanta o tumulto nos fluidos nervosos, e desordena a conexão das idéias sobre o que se ocupa" (idem:40).

Se as doenças originam-se da alma, dos excessos que as paixões causam ao espírito, o melhor tratamento é a punição. Os confessores são médicos da alma, que prescrevem não apenas orações, jejuns e preces, mas também remédios amargos e azedos para os que se entregam aos pecados da carne. Os próprios remédios são punições. Não atuam sobre a fisiologia do corpo, visam corrigir os doentes de suas condutas, zelar para que disciplinem suas atitudes e paixões.

Nesse sentido, o casamento também é uma forma de remédio que deve ser prescrito para o caso das “moças histéricas”. A razão do casamento não é o amor. Não é a transmissão de herança. Não se faz por títulos de nobreza. Todas essas razões podem estar incluídas, mas uma nova função foi acrescida ao casamento: ser remédio para aqueles que não conseguem controlar suas pulsões sexuais.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O amor é uma invenção humana




O amor não teve sempre o mesmo sentido em qualquer época e em qualquer lugar, tampouco esteve sujeito às mesmas regras. Não é um sentimento com o qual nascemos ou que nos tenha sido dado por Deus. Não é um elemento da alma, assim como a dor é uma reação do corpo. O amor é uma invenção humana e por isso, dizer amar alguém tem um sentido particular. Respeito, companheirismo, solidariedade, cumplicidade, identidade são conceitos facilmente associados ao sentimento no século XXI, mas que não estão contemplados no senso comum da sociedade européia setecentista.

Até o século XVII, o casamento não deve incluir o amor. Ele acontece entre amantes, não entre marido e esposa. É surpreendente a naturalidade com que os romancistas desse século narraram a figura do amante. Honoré de Balzac, em Esplendores e Misérias das Cortesãs, descreve a relação entre seu personagem Lucien e a condessa Sérizy. Ele um jovem solteiro, desejoso de ascender à corte e ela uma senhora respeitada e casada. O romance entre os dois desenrola-se a vista da sociedade e do próprio marido. Lucien a acompanha aos bailes, óperas e está sempre em sua casa. O conde Sérizy não apenas sabe da existência do rapaz, mas ajuda a esposa a desfazer-se das cartas de amor que eles haviam trocado. Sua preocupação não é com o que a sociedade poderia falar sobre o romance, mas sim com a possibilidade da intimidade da condessa vir a público.

André Capelão, em Tratado do Amor Cortês, livro escrito no século XII, diz claramente que se dois amantes se unem pelo casamento, o amor entre eles desaparece repentinamente. A razão é simples. O casamento leva a contrariar a regra básica para a sobrevivência do sentimento, na opinião do autor: não se tornar nunca notório e publicamente divulgado. Para manter o amor, recomenda Capelão, ele pode ser conhecido apenas por três pessoas: dois confidentes, um do lado do homem e outro da parte da mulher, e um mensageiro fiel. Como o amor é um sentimento menor, pagão, excluído dos círculos formais; não há nada pior do que a formalização, a definição de um lugar público onde pudesse se desenrolar sem intempéries e de forma previsível. A publicização do amor viria, inevitavelmente, acompanhada da rotinização, extinguindo-se assim a paixão. O século XX abrirá mão do jogo cortês em favor de laços mais produtivos, editará a crença de que um sentimento estável é preferível aos arroubos da paixão e é natural que aconteça na idade adulta.

domingo, 3 de janeiro de 2010


O amor como ilusão


Os autores que escreveram nos séculos XVI e XVII viram o amor como ilusão, simples artifício da imaginação, produto dos jogos de sedução. Dirá o leitor que ainda hoje é assim. Engana-se, temos menos convicção de sua artificialidade. Acreditamos que a perfeita combinação de gênios, a proximidade de gostos e valores, o desejo sexual, tudo isso somado é capaz de produzir um sentimento que se expressa na intensa necessidade do ser amado e na completa realização quando ao seu lado. Nos séculos XVI e XVII, tal visão faria sorrir, pois para os escritores desse período não eram identificações que fundamentavam o amor, mas sim estratégias banais que suscitavam a fantasia (a maquiagem da mulher, sua roupa, o arranjo das palavras...). O sentimento era resultado de artifícios que fomentavam a imaginação e provocavam uma espécie de obsessão.

Assim, não eram sinônimos de amor, sentimentos como cumplicidade, solidariedade, amizade, companheirismo e outros comuns ao homem contemporâneo. O amor era resultado da corte, que aprisionava o amante numa trama de aparências e artifícios. Associava-se a estupidez, loucura, doença, ilusão, crime, irracionalidade e outros termos pouco nobres.

Em "Do Amor", Stendhal explica que o objeto da paixão não é o que o outro de fato é, mas sim suposições que se faz do ser amado, construção mental resultante dos contratempos e desencontros, que terminam por incentivar a imaginação e levar o indivíduo ao estado que chamou de "cristalização". Stendhal não estava satisfeito com a expressão, mas dizia não encontrar nada melhor para definir o jogo de amor.

De acordo com Stendhal, cristalização é um processo que começa com um simples olhar e evolui conforme a imaginação do protagonista. Acasos se somam a trama e a impossibilidade de falar de fato com a amada, de conhecê-la e aproximar-se, faz o enamorado construir uma ficção. Aos poucos, a curiosidade cristaliza-se como uma obsessão na medida em que a dama não oferece oportunidade para o cavalheiro desvendar quem ela é. O pudor, o recato, os cuidados que a família tinha com a jovem favoreciam e incitavam a imaginação do homem, na opinião de Stendhal, levando-o a construir uma imagem perfeita e bela do ser amado.

A visão de Stendhal não é diferente de outros autores que escreveram no mesmo período. Balzac, em Esplendores e Misérias das Cortesãs, narra o processo de sedução de que foi vítima o duque de Nucingen. A cortesã Esther, orientada pelo maquiavélico Jacques Collin, cria uma trama que incita os sentidos e imaginação do austero, racional e prudente homem de negócios, levando-o a gastar fortuna com seus caprichos.

Em Ligações Perigosas, de Choderlos de Laclos também repete seqüência semelhante de fatos entre o Visconde de Valmont e a presidenta de Tourvel. O visconde tenta seduzir a presidenta colocando-a num jogo, em que ela não conhece as regras. Mas é a resistência que a senhora faz a sua corte, que o apaixona. O feitiço vira contra o feiticeiro e conquistar a presidenta torna-se uma obsessão para Vamont. Ele começa a imaginar sua personalidade e termina completamente seduzido pela imagem que construiu.

Quando descreve a presidenta para a marquesa de Merteuil, ela conclui que ele só poderia estar apaixonado para produzir imagem tão idealizada. O fato de encontrar qualidades únicas e raras na presidenta denuncia a Merteuil que ele está caído de amor, traindo o pacto estabelecido entre eles de apenas seduzirem, mas jamais deixarem-se se apaixonar.

Não é uma posição diferente da sustentada por Marquês de Sade, quando compara o amor à religião, em “Crimes do Amor”. Para Sade, o amor é um jogo onde vence o mais esperto, o mais articulista, o mais racional. O amor romântico, puro e virtuoso, pertence aos fracos, aqueles que de tão inocentes mais se aproximam dos idiotas. Os apaixonados são aqueles que se deixam iludir por imagens, por artifícios de vaidade e interesses. Não se trata de um sentimento verdadeiro de reconhecimento da imagem do outro. É uma ilusão que o amante alimenta seja em razão da beleza, da riqueza ou heroísmo idealizado no outro.

sábado, 2 de janeiro de 2010


A procura pela felicidade

Sempre me causou curiosidade a associação tão forte entre sofrimento e amor. Não seria possível amar sem sofrer? Se não, por que amar? Não é melhor a solidão ou envolver-se com outras paixões: viagens, trabalho, amizades, sexo?... Por que desejar tanto uma pessoa ao ponto de perseguir sua própria infelicidade? Não tenho resposta para conduta tão comum e tantas vezes descrita na arte popular.Não sei explicar esse desatino que tantas vezes cometi. Quero, contudo, esboçar uma reflexão que pode lançar luz ao problema.

A culpa por amar não existia entre os gregos, nem mesmo quando se tratava de amor carnal entre mãe e filho. Diz François-René de Chateubriand que o “incesto não era coisa tão rara e monstruosa entre os antigos, para excitar semelhantes terrores no coração da delinqüente. É verdade que Sófocles fez morrer Jocasta no momento em que conhece o crime; Eurípedes, porém, deixa-a viver longo tempo depois. A acreditarmos em Tertuliano, as desgraças de Édipo excitavam nos macedônios os gracejos dos expectadores” (1948:251).

Se não havia culpa, não havia sofrimento. Errado. Esse decorria da desventura de amar, mas não da culpa por ter preferido o desejo carnal, por ter dedicado a um amor mundano. Esse drama passa a ser comum na Idade Média. Chateubriand marca sua entrada a partir do romance medieval Abelardo e Heloisa. É o pensamento cristão que estabelece uma dissociação irresolúvel entre dois mundos: o mundo terreno e o espiritual. No plano celeste estaria tudo que é imutável, sagrado e puro. No terreno, tudo que é efêmero, pecaminoso e impuro.

Para vivenciar na terra os benefícios da vida sagrada, havia um único caminho, renunciar as paixões, desejos e realizações mundanas. Entrar para um mosteiro e permanecer casto. A vida monástica é um lugar de repouso, onde se experimenta a vida constante, regrada, distante dos excessos da carne e dos desejos. Acreditava-se mesmo que os mosteiros fossem locais sagrados onde as pestes e desgraças humanas não penetravam, onde seus moradores viviam de glorificar a Deus. Uma espécie de oásis no meio do pecado e da miséria.

Se a vida monástica era tão boa, era normal que todos a desejassem, mas nem todos estavam preparados para assumi-la. Assim, quando um religioso não conseguia controlar seus desejos carnais e entregava-se ao “amor”, ele tinha como conseqüência o retorno ao mundo terreno e suas conseqüências: dores, sentimentos fugazes, ilusões, paixões efêmeras, enfim, as limitações da vida humana. Daí decorria a culpa por amar ou, em outras palavras, a culpa por ter preferido o amor incompleto de um humano ao amor constante de Deus. Assim, não é difícil deduzir como se inaugura a associação irresolúvel entre amor e sofrimento. Amar é inevitavelmente sofrer, pois é entregar-se a um mundo de sentimentos imperfeitos. É deixar a serena vida religiosa para viver desilusões, traições, infelicidades e tragédias. É pecar, por fazer uma escolha diferente daquela desejada por Deus.

A associação entre amor e sofrimento foi reforçada com a sacramentalização do casamento pela Igreja Católica. O casamento adquire as qualidades de eterno, imutável, constante e sagrado. Qualidades que antes só existiam no plano divino, para aqueles que escolheram renunciar os excessos das paixões e desejos da carne e abraçar a vida religiosa. Se antes a felicidade e qualquer sentimento constante eram impossíveis na vida terrena, a Igreja cria um segundo lugar (além do mosteiro) onde eles se tornam viáveis: o casamento. Acontece que se o casal de amantes não se realiza no casamento, se eles não evoluem para uma relação duradoura ou se simplesmente se cansam com a vida a dois, eis de volta o sofrimento. Eis de volta a infeliz associação entre sofrimento e amor.