quinta-feira, 12 de julho de 2012


Você não conhecia a solidão até o outro chegar

As emoções são impossíveis de serem conhecidas senão pela interação com o outro. A própria solidão não é uma emoção que se possa experimentar sozinho. Um indivíduo, que nasceu e foi abandonado no Alasca por uma mãe ingrata, e que cresceu sem qualquer companhia, jamais compreenderá o que é solidão. Vamos para uma hipótese menos absurda. Um náufrago chega a uma ilha deserta, depois de certo tempo, ele esquece o que é dispor de companhia e também o que significa estar só. A solidão deixa de existir para ele. Somente o outro pode lhe dizer que está só.

A verdadeira solidão, que é aquela que não cessa mesmo no centro urbano, você só conhece quando surge a pessoa que  te completa. Nesse momento entende que esteve sozinho todo um tempo e nem percebeu. Era um solitário errante e nem sabia disso. Depois de conhecer a verdadeira solidão, o mundo se torna pequeno. Qualquer lugar do mundo não fará diferença, pois só faria se aquela pessoa estivesse lá. Ela não estará, então, qual a importância de para onde ir? Assim, você retorna a situação de errante. No final, penso que não há outra opção ao ser humano senão a condição de errante. Dificilmente, alguém tem a felicidade de viver por toda uma vida com a pessoa que lhe apresentou a solidão.

O que é válido para o sentimento de solidão pode ser estendido para  outras emoções. Veja a emoção do beijo. Ele pode ser apenas uma rotina burocrática. Odeio beijos burocráticos, mas eles são mais comuns que deveriam. Lembra-se daquele amigo que chega beijando todo mundo no trabalho? Pois esse é um beijo burocrático. Ele segue uma rotina, tem um horário, tem um significado comum e pode ser massificado. Burocracia weberiana puríssima!!! Não tem emoção nenhuma. A pessoa te beija burocraticamente, você finge um sorriso e que gostou, e todos experimentam aquela situação de normalidade. O verdadeiro beijo é anormal. Ele não estava na rotina. Ele não era esperado. Ele é uma quebra de rotina. Você lá ia naquela vidinha besta e de repente alguém surge no seu caminho, te abraça e sem te dar tempo de pensar, te beija. Pronto! Você descobre que há tempos não tinha sido beijado ou que nunca foi beijado! Você descobre a emoção do beijo e a sua falta. Há pessoas que vivem uma existência inteira sem conhecer o verdadeiro beijo, morrem sem sequer saber que ele existe.

Aqui leitor já não preciso mais explicar porque a emoção é uma construção social. Ela não existe antes da interação, não é uma qualidade biológica. No entanto, durante séculos foi colocada de lado como objeto de estudo pela Sociologia, porque não possui a concretude dos números, dos questionários, das tabelas... Como quantificar emoções? Como descrevê-las de modo científico? Como definir suas consequências e desdobramentos? Mas esses são desafios para Sociologia e não limitações.

3 comentários:

  1. Li, sei lá o que achei RS; a solidão não é um assunto que me mobiliza; vez ou outra ela atua, acionada por não sei eu o que! aí, nestes casos, fico propenso a pensar nela e sobre ela; de resto, ela passa ao largo; talvez até por defeito de caráter eu tenda a não identificá-la (uns dirão que pode mesmo ser estratégia de sobrevivência, RS). Esses assuntos: amor, solidão, sexo eu tenho dificuldades de pensá-los juntos, como estrutura coerente; tendo a pensar cada um a seu tempo, sem fazer relações diretas entre eles. À semelhança do narrador de "A terceira Margem do Rio" de Guimarães Rosa, fico a imaginar que, em muitos momentos, sou um homem de tristes palavras! mas,ainda assim, tento caminhar no compasso do mais certo!!

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