terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Aprender a perder tempo



 
A modernidade inventou o hábito de cronometrar o cotidiano. Refiro-me a estranha mania de colocar horário para tudo: para acordar, para trabalhar, para aprender, para amar, para lanchar... É verdade que sempre houve certa divisão de rotinas, mas sem a precisão das horas. Basta lembrar que Galileu estabeleceu as primeiras relações entre espaço e tempo no século XVI. Em 1595, ele descobriu a Lei do Pêndulo, que contribuiu para o avanço dos relógios mecânicos, embora os primeiros relógios fossem artigos de luxo, verdadeiras jóias e símbolos da alta aristocracia. Eram usados mais por status que por sua utilidade.

O fixar tempo para as mínimas ações humanas surge da necessidade de tornar a produção eficiente. Produzir o máximo no menor tempo é um preceito que orientou a revolução industrial e que serviu para regular as relações econômicas e produtivas, mas que não deveria se estender, como ocorre atualmente, a todas as esferas da vida, inclusive a sentimental.

Hoje, o tempo passou a servir de medida não só para observar quantidade de objetos produzidos, mas também para avaliar realização pessoal. Somos mais ou menos realizados conforme consigamos conquistar um bom emprego, comprar uma casa, ter um filho, estabelecer uma relação estável com outra pessoa, concluir os estudos... em prazos previstos. Nos tornamos responsáveis por fechar certos ciclos da vida na idade convencionada como correta, não importam os acasos, as diferentes experiências, os desejos e valores que nos orientam. Certos padrões de idade e realização se fixaram como corretos e as pessoas são responsabilizadas, individualmente, caso não os cumpram.

É preciso alcançar determinados resultados na vida pessoal, do contrário, por alguma razão o sujeito será menos que o outro, seja porque não soube aproveitar oportunidades, gerenciar emoções e desejos, superar fraquezas, ser persistente e disciplinado, fazer as melhores escolhas, enfim, ser eficiente na esfera privada. Desta forma, se o tempo foi uma variável relacionada à eficiência e produtividade no mundo econômico, tornou-se um importante indicador para avaliar se o indivíduo soube bem conduzir sua vida pessoal para uma situação estável.

Ao tornar-se uma medida aplicável a qualquer dimensão da vida, o tempo fez aumentar a auto-exigência, a auto-regulação, sobre domínios que não temos completo controle ou que não permitem padronizações. Como posso saber quando vou me apaixonar? E como pode ser minha a responsabilidade pelo prazo em que essa paixão vai durar? E por que sou mais ou menos apaixonado conforme minha relação dure mais ou menos? Como diria Vinícius de Moraes, há relações que “são eternas enquanto duram”. A experiência do que vivemos e como, e a avaliação se valeu à pena ou não são individuais; não são passíveis de padronização.

Ora, mas se passamos a avaliar nossas realizações pessoais pela variável tempo, somos também mais ou menos eficientes conforme venhamos a concluir ou não os necessários ciclos da vida nos prazos previstos. Eficiência passa a ser um conceito aplicável a esfera privada. Dessa associação decorre uma terceira, tão estranha quanto, a de tornar eficiência sinônimo de felicidade. Nos acostumamos a pensar que pessoas realizadas são pessoas felizes.

Para superar esta confusão, precisamos ter claro que o controle do tempo é uma estratégia para disciplinar o indivíduo. Contar o tempo que o operário leva para desenvolver certa tarefa, por exemplo, é uma forma de impedir que ele se disperse em conversas e devaneios. Aplicado como medida a dimensão privada de nossas vidas, o tempo funciona como autocontrole, com um resultado disciplinar ainda mais rígido e eficiente que qualquer controle externo, pois passa a ser realizado pelo próprio indivíduo e se estende a sua intimidade, aos seus pensamentos, sentimentos e emoções. Regula suas escolhas mais particulares, num nível de profundidade que seria impossível de ser penetrado pelas instituições.

Como o Estado pode dizer como devemos amar, por quanto tempo e se é correto ou não nos entregarmos a uma paixão avassaladora e doentia? A Igreja até pode fazer recomendações, mas que poder ela tem para alterar suas escolhas? Ocorre que, mesmo sem qualquer força coercitiva externa, olhamos para o tempo que regula nossas vidas e pensamos: “É melhor acabar agora esse relacionamento, ele já está atrapalhando o meu trabalho. Estou perdendo tempo demais com essa pessoa”. E corremos para a estabilidade do casamento antes que seja tarde demais.

O tempo é, assim, uma fonte contínua de ansiedade por cumprir prazos e exigências colocados principalmente por aqueles que nos são mais próximos e caros: amigos, parentes, vizinhos, colegas de trabalho. O tempo tem um peso direto sobre a identidade do indivíduo, a imagem que faz de si mesmo, e o prestígio que goza junto aos grupos de que participa. Por isso, é muito difícil para qualquer pessoa romper com a medida de tempo e experimentar sua vida sem qualquer preocupação com o resultado e quando atingi-lo. A atitude mais comum é entregar-se a essa neurose coletiva.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Comer, rezar, amar

“Aqui nos Estados Unidos, o casamento tem um poder místico, intangível: é um passaporte para a idade adulta, para a respeitabilidade e, em certa medida, para a cidadania. Qualquer relacionamento ou estado civil que não seja ‘casado’ é considerado indigno”. A afirmação é de Elizabeth Gilbert, autora do best-seller “Comer, rezar, amar”, numa entrevista a revista Marie Claire. Seu livro deu origem ao filme com mesmo nome e que estreou esta semana nos cinemas brasileiros.

Nele não são apenas os americanos que valorizam tanto o casamento. Liz (personagem principal vivida por Julia Roberts) é questionada várias vezes por outras mulheres a respeito de seu estado civil e é com certo constrangimento que ela responde ser divorciada. Chega a confessar ao amigo que nutria um sentimento de culpa por ter terminado seu casamento, aparentemente, estável e com uma pessoa que gostava dela.

Liz resolve concluir a relação, quando percebe que o sentimento e o desejo sexual se esgotaram e que o casal passaria a uma vida de aparência. Ao terminar o casamento, ela sai a procura do auto-conhecimento e de equilíbrio espiritual. Sua busca é bem ao estilo dos livros de auto-ajuda orientais.

Assistindo ao filme, eu me perguntava: que fundamento para a vida ela encontrará? Confesso que alimentei com certa expectativa a esperança de algo que me surpreendesse. Não foi o que aconteceu. Liz roda três países para extrair conclusões que estão em qualquer livro de auto-ajuda: viver o prazer em si mesmo,  livrar-se de qualquer sentimento de culpa e abrir-se para o risco de um novo relacionamento. No final do filme, sua grande conquista é amar novamente com a mesma paixão do primeiro amor. Se ela tivesse encontrado o atual marido no início do filme, os outros ensinamentos seriam dispensáveis.

Podemos concluir, depois de assistir a “Comer, rezar e amar”, que a grande realização para a mulher é mesmo o casamento e, principalmente, quando ele vem acompanhado de um pouco de paixão. A conquista de Liz não é o amor com sexo avassalador, ou alguém por quem tenha que superar preconceitos sociais, raciais, etc. Não, é um amor adocicado, cotidiano, brejeiro. Sem altos nem baixos, mas constante como os finais de semana em família. Assim o fundamento para sua existência, sua grande conquista, é recuperar a situação de mulher casada, que a legitima socialmente.

Não sou atraída por esses amores bem-comportados, mas pelos amores ao estilo de Nelson Rodrigues. Em “Asfalto Selvagem: Engraçadinha, seus pecados e seus amores”, Luís Cláudio, um funcionário do Itamaraty, propõe a Engraçadinha: “Vamos fugir?” Ela pergunta: “Fugir? Ele responde: “Fugir, sim. Fugir simplesmente. É tão simples fugir”. O amor tem esse ímpeto de romper com tudo sem qualquer preocupação com o que virá depois. Fugir para onde? E fazer o que depois de fugir? Perguntaria qualquer pessoa numa situação de normalidade. Mas quem ama não se pergunta pelo que vai acontecer logo ali em frente. Por um momento a sociedade não existe. É completamente o oposto de quem está preocupado em legitimar-se na sociedade. Diz Renato Janine Ribeiro que o conflito com a sociedade do herói apaixonado vai além daquele vivido pelo revolucionário, pois esse ainda deseja salvar ou recriar a sociedade. Já o apaixonado escolhe a morte social, a morte de suas honras e riquezas, às vezes a própria morte (A Paixão Revolucionária e a Paixão Amorosa em Stendhal).

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O amor não é produtivo


Adão e Eva, de Lucas Cranach
 Nenhuma outra sociedade, a não ser a moderna sociedade ocidental, estabeleceu o amor como base para o casamento. E é fácil entender a razão. O amor paixão é conflituoso com as rotinas da vida cotidiana. Pode fazer o indivíduo alternar situações de estrema tristeza a estrema euforia. Outras horas, o conduz ao simples estado contemplativo. Costuma também não respeitar as regras de relacionamento estabelecidas, subverte diferenças de renda, escolaridade, idade, raça e religião.


“O envolvimento emocional com outro é invasivo – tão forte que pode levar o indivíduo ou ambos os indivíduos, a ignorar suas obrigações habituais”, diz Giddens (1993: 48). Sem contar, que nunca sabemos realmente se de fato amamos. Podemos morrer de amor por alguém hoje e simplesmente odiá-lo amanhã. Por essa razão, em qualquer outra sociedade, o casamento se assentou em fundamentos mais sólidos e estáveis que o estado de encantamento do amor paixão. Estabeleceu-se a partir de contratos econômicos, trocas familiares e obrigações recíprocas.

Mas não é apenas a instituição casamento que, para sua sobrevivência, exige certo domínio sobre as emoções, várias outras organizações e instituições teriam seu funcionamento comprometido se os indivíduos que delas participam não soubessem ou não estivessem dispostos a controlar seus ímpetos de raiva, tristeza, alegria... Simplesmente, o mundo moderno com seus horários, exigências de produtividade, interações civilizadas não seria possível se não tivéssemos aprendido a dominar a torrente de nossos sentimentos.

Freud e Foucault descrevem a repressão da sexualidade como condição para o desenvolvimento de nossa cultura. A libido foi desviada da realização sexual para o trabalho, a arte, a produção intelectual, diz Freud. Já Foucault acredita que o Ocidente desenvolveu técnicas para reprimir a expressão da sexualidade e controlar a intimidade. Mas penso que os instintos e impulsos sexuais são apenas parte de um problema maior que é controlar e dominar todas as nossas emoções. Embora a sexualidade seja conseqüência também de nossas emoções – indivíduos tristes sentem menos disposição sexual, assim como o ciúme alimenta a imaginação e ativa em alguns casos o desejo sexual – não é suficiente o controle sobre a sexualidade e diria até que ele é mais fácil de se obter que o controle sobre a emoção.

A revista Veja (ano 43, n. 39, setembro 2010) traz uma matéria interessante sobre as emoções. Segundo a reportagem, as emoções estão associadas à tomada de decisões, das mais simples às mais complexas, e também resultam de algumas substâncias químicas produzidas pelo nosso organismo. Para o argumento que desenvolvemos neste texto, importa saber que em excesso qualquer emoção pode nos tornar extremamente improdutivos. Até mesmo alegria demais não é bom, poder levar o indivíduo a colocar-se em situações de risco: exagerar no consumo de álcool, praticar sexo inseguro, comprar compulsivamente... Por outro lado, a tristeza também tem seu preço: distúrbios do sono, problemas de peso, fadiga, irritação, apatia, lentidão física e intelectual, entre outras.

As emoções são muitas, mas não importa qual delas, seja em excesso ou em falta, são sempre improdutivas. São necessárias quando dosadas. O medo e a raiva, por exemplo, estão associados ao instinto de preservação, prepara o organismo para reagir em situações de perigo, para lutar ou fugir. Assim, podemos afirmar que se não tivéssemos aprendido a dosar nossas emoções, simplesmente não teríamos desenvolvido qualquer civilização. Melhor, a afirmação não é bem essa. Com base nos estudos de Nobert Elias, veremos que as emoções não são inatas. Elas se desenvolvem e se modificam em sociedade. De alguma forma, as emoções estão relacionadas a conteúdos morais e por isso, as reações das pessoas são diferentes conforme a cultura da qual participam e o momento histórico que vivenciam.
Adão e Eva, Lucas Cranach, 1526

Comportamentos que na Idade Média passariam por normais, hoje nos causariam repugnância, como: escarrar a mesa, mexer o molho com os dedos, limpar os dentes com a ponta da faca, limpar o nariz com a mão, beber no prato... Elias explica que o indivíduo está imbricado numa teia de relações que o leva a desenvolver um controle cada vez mais preciso sobre sua conduta. O que de início é um controle externo, no processo de socialização torna-se autocontrole automático, inconsciente, quase uma segunda natureza.

A reação de nojo é conseqüência de um processo de socialização que nos ensinou formas de condutas convencionadas como corretas. Desde a mais tenra idade, a criança aprende a calcular o efeito de suas ações e de outras pessoas e a controlar seus impulsos e ações. As emoções são reflexos ora de prazer, quando a conduta adota é socialmente aceita, ora como sanções, quando é reprovável. As estruturas psíquicas mais arraigadas e profundas provocam reações químicas conforme a leitura que fazemos do ambiente social.

Com o amor não é diferente. Corresponde a uma reação de prazer quando nos identificamos com o outro, mas um sentimento que também foi dosado e modelado no decurso do processo civilizador. Antes de tornar-se fundamento para o casamento, o amor era um sentimento clandestino, que acontecia entre amantes e em segredo; que desembocava no crime, no suicídio, na tragédia; e que não abria mão do ímpeto da raiva e do ciúme. O amor era uma doença para as famílias cristãs, até mesmo com sintomas descritos em livros médicos, e não recomendado às boas moças.

Transformamos o elemento de liberdade e transgressão do amor, num sentimento bem comportado, racionalizado e represado nas regras do casamento – que também mudaram. O casamento deixou de ser um simples contrato econômico e passou a incluir, entre os seus fundamentos, o amor e a vida sexual. O casamento perdeu desta forma grande parte das suas qualidades de racionalidade e pragmatismo, mas a sociedade conseguiu delimitar um espaço onde o amor pudesse existir sem colocar constantemente em risco as instituições. Não apenas deram-lhe um lugar, mas também fizeram seus participantes acreditar que o que antes era espontâneo e fugaz, poderia durar o resto da eternidade como parte do elemento divino no homem.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A civilização e a domesticação do amor em Austen e Brontë


Os personagens de Jane Austen surpreendem pelo tanto que são comedidos em suas emoções, polidos em suas maneiras, assexuados e cercados por constantes obrigações sociais. As menores atitudes - como um olhar, o tom de voz, o enrubescer - estão carregadas de significado e são controladas pelos mais próximos. Seus personagens experimentam um autocontrole tão rigoroso que fiquei em dúvida se poderíamos das descrições de Austen deduzir as regras de conduta que orientaram a sociedade inglesa na passagem do século XVIII ao XIX. Seriam reflexos dos ideais religiosos protestantes ou deveriam ser tratadas como simples abstrações de um ideal conduta desejada pela autora?

Resolvi ler outra autora do mesmo período e da mesma corrente literária. Parti para Emily Brontë, O Morro dos Ventos Uivantes. E que surpresa ao deparar com personagens e descrições da sociedade completamente avessas aquelas de Jane Austen! Qual a razão?

Austen fala das relações cotidianas e familiares da nobreza inglesa. Alguns de seus personagens não são nobres, mas é sobre as relações da nobreza com a classe média ascendente, a comunicação entre integrantes dessas duas classes, que a maioria dos conflitos que norteia sua obra se desenrola. Já Emily Brontë volta-se para a sociedade distante dos círculos de convivência com a nobreza, focaliza o modo de vida daqueles que residiam no campo e que pouco contato mantinham com os salões e teatros onde se desenvolviam os hábitos sociais mais sofisticados. Seus personagens vivem isolados nas grandes propriedades rurais e o a maior proximidade que experimentam com o mundo civilizado e citadino é a missa na capela do vilarejo.

Não participam, como os personagens de Austen, dos bailes, não se obrigam a manter uma rotina de visitas, jantares e outras obrigações sociais. Vivem mais em contato com a natureza e com os animais. É verdade que os personagens de Austen também residem no campo, mas estão continuamente em viagens para Londres – centro da civilização. Em Morro dos Ventos Uivantes, eles nunca saem do campo, não têm amigos ou parentes fora daquele ambiente.

A distância tão clara entre a vida social e as regras de conduta descritas por Austen e Brontë não resulta apenas de diferenças de estilo entre as autoras ou do objeto de suas descrições. Denuncia a visão de mundo dominante naquele período que apontava para qualidades do comportamento discrepantes entre o campo e a cidade, entre aqueles distantes do mundo civilizado e os outros que o construíam. É conhecido que a nobreza da corte (alta nobreza) mantinha certo desprezo pelo comportamento da nobreza provinciana (Balzac, Nobert Elias). Quanto mais próxima a convivência com o rei e sua corte, maiores eram as exigências sobre os modos de vestir, comer, falar, caminhar... A sofisticação de modos e linguagem conferia status ao indivíduo e facilitava estabelecer amizades, obter novos convites para eventos sociais, manter-se presente no ambiente onde o poder e o prestígio se distribuíam. Por essa razão, podemos dizer que não se trata de construções abstratas das duas autoras, mas reflete a visão que a classe média ascendente e a nobreza tinham das distâncias que separavam esses dois mundos e do que era portar-se de maneira civilizada.

As diferenças no comportamento dos personagens e da vida social que participam, entre as duas autoras, resultam de cortes distintos sobre a realidade social, no entanto complementares de uma visão de mundo dominante naquele período e que pode ser lida em outros autores.

Muitas das características do personagem Heathcliff (Morro dos Ventos Uivantes, Emily Brontë, 1847) aproximam-se de Drácula (Drácula, Bram Stocker, 1897). Não são obras próximas, cinqüenta anos as separam. No entanto, não acredito que as semelhanças sejam acasos. Drácula e Heathcliff são acometidos por um amor fulminante e impossível. Perdem a mulher de suas vidas por amor. Não é uma morte natural – claro suicídio no primeiro caso e morte provocada no segundo. A partir deste momento, eles se isolam do mundo, rompem com as regras morais católicas e praticam a maldade e a violência de maneira gratuita. Do amor passam ao ódio, que alimentará a vingança impiedosa que empreendem. Se transformam numa espécie de monstro que vaga no limite entre o mundo real e o sobrenatural. É a paixão desmedida, incontrolada, a incapacidade de Drácula e Heathcliff de dominarem suas emoções, de racionalizarem seus sentimentos, que os levam para o crime e que os aproximam da selvageria e bestialidade.

Se fosse possível traçar uma linha imaginária, de um lado estariam a razão e os sentimentos religiosos e do outro, a insensatez e os impulsos demoníacos. Em Brontë e Bram Stocker, o amor é um sentimento que não cabe nas convenções e instituições sociais estabelecidas. De tão desmedido torna suas vítimas insanas e as enclausura numa dimensão não humana, que impossibilita viver em paz. Essa definição diabólica do amor também pode ser lida nos textos médicos e religiosos do período. Para a Igreja, amar alguém mais que a Deus era pecado e impedia o indivíduo de conquistar a vida eterna. A Igreja Católica defendia a renúncia completa ao mundo – nada mais terreno que desejar realizar-se no outro. No protestantismo, não se trata de renunciar ao mundo, mas de viver os ideais cristãos no cotidiano, fazer uso das coisas do mundo para servir e glorificar a Deus. Os prazeres terrenos não podem ser experimentados como fins em si mesmos, devem servir como instrumentos para edificar um mundo ordenado e coerente com a vontade divina (Cf. As fontes do Self, Charles Taylor). Desse modo os sentimentos precisam ser moderados, distanciados, domesticados e capazes de caber nas rotinas da vida familiar. Como as pessoas devem se comportar na visão protestante é exatamente (por coincidência ou não) como são descritos os personagens de Jane Austen.

Eles não se parecem em nada com Drácula e Heathcliff. São extremamente racionais, educados, contidos e capazes de administrar situações estressantes e conflituosas conduzindo-as para finais felizes. É precisamente pela habilidade que possuem em gerenciar a expressão e a vazão de suas emoções que evitam que as situações que atravessam desemboquem na tragédia, no suicídio, no crime e na infelicidade.

Agora podemos resumir a visão de mundo desses três autores: Stocker, Austen e Brontë.

O amor e qualquer outro sentimento incontrolado só são possíveis num mundo que ainda não se civilizou. Persistem em pessoas que vivem isoladas nas propriedades rurais, distantes da sociedade e em contato com a natureza. Essas pessoas são quase selvagens e o sentimento delas também. A paixão desenfreada de Heathcliff por Catherine ou de Drácula por Mina não poderia existir nos salões ingleses com seus passos sincronizados e gestos medidos. A estupidez, a raiva, o ódio, a vingança, a paixão indomável são características do selvagem que ainda habita o homem e a porta de entrada para o demônio.

domingo, 18 de julho de 2010

O prazer sem desculpas

Não há nada de filosófico em Fanny Hill (de John Cleland, publicado em 1749). Apenas descrições cansativas, repetitivas e cheias de detalhes sobre as aventuras sexuais de sua protagonista. O autor não tem a pretensão a qualquer análise ou crítica a sociedade da época. Não há conflitos psicológicos em seus personagens – não são figuras complexas. Não há sequer uma trama bem construída. É uma sucessão de experiências sexuais com um final feliz e moralmente correto. O que retirar do livro, então?

Uma clara separação entre sexo e amor. A certeza de que o sexo está relacionado aos artifícios da imaginação, a idade e aos acasos. Também que as circunstâncias podem favorecer uma vida libertina, independente da personalidade e da educação do indivíduo. Por que o livro escandalizou tanto quando foi publicado, sendo sua publicação proibida nos Estados Unidos até 1966?

Porque fala da sexualidade feminina em si, sem nenhum atenuante. No livro, as mulheres não são vítimas dos jogos de sedução ou de qualquer armadilha. Não é pela força ou por imposição da sociedade que são levadas para cama. Também não são enganadas por fantasias de amor de cavalheiros galantes. O desejo da mulher, neste livro, está dissociado de qualquer norma social ou imposição – ele acontece por homens de classe social mais baixa, por idosos, por sexualmente pervertidos... E não é por caridade ou dinheiro que a jovem Fanny e suas amigas se entregam a orgias com todos esses tipos, mas puramente por prazer.

Talvez por isso escandalizasse tanto. Por descrever a sexualidade feminina e defender que o sexo não inclui necessariamente o amor. Pode até acontecer, mas será uma feliz coincidência.

Termino de ler Fanny Hill e parto para "O Sofá" de Crébillon Fils. Também um romance libertino, publicado em 1742.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

O amor e o pudor em Stendhal



O amor é o milagre da civilização
Stendhal


Terminei de ler o Vermelho e o Negro e deveria voltar aqui para comentá-lo, conforme prometi. Mas preferi adiar um pouco e fazer uma comparação com outro livro do autor, Do Amor. Nessa obra, Stendhal teoriza o que exemplificará na literatura.

O amor para Stendhal é um artifício da imaginação, uma construção mental, criação que faz vítima seu próprio autor. Ora ele o chama de loucura, ora diz que é como uma febre que nasce e morre sem a interferência da razão.

Para Stendhal, o amor não era um sentimento natural e presente em qualquer momento da história da humanidade. Em Do Amor, ele repete que camponeses e selvagens, preocupados com a necessidade imediata da sobrevivência, jamais o experimentaram. Ele era resultado da refinação dos costumes, da delicadeza dos prazeres, das horas de lazer e solidão que a vida na corte propiciava. A distância social e a formalidade a que os nobres estavam sujeitos facilitavam os jogos de conquistas, os flertes  e a construção de uma imagem idealizada do ser amado. A partir de pequenos detalhes, o amante projetava qualidades que a pessoa sequer pensou em aparentá-las. A esse processo ele chamou de cristalização –   como cristais que depositados sobre as folhas de uma árvore lhe dão outra forma em nada parecida com a original.

Ele explica que os “jogos de corte” não apenas criavam condições ideais para os arroubos da imaginação, mas que a união ou apenas a proximidade com nobres ensejava oportunidades sociais e políticas raras: “Não havia cortesão que não sonhasse com a fortuna rápida de um Luynes ou de um Lauzun, e mulher amável que não visse em perspectiva o ducado da madame de Polignac” (Do Amor, 2007:21). Assim, a possibilidade de ascensão social ou de subverter as regras sociais, que limitavam o contato entre indivíduos de classes sociais diferentes, funcionava como uma espécie de atrativo ao amor.

Na visão de Stendhal, o amor é o resultado de uma vida social que favorece a imaginação, mas também da dissimulação e repressão dos sentimentos. Porque o nobre não podia simplesmente expressar seu desejo, ele precisava cumprir todo um ritual de conquista  que o tornava vítima de seu próprio jogo. Segundo Stendhal, a vida na corte exigia, principalmente da mulher, que dissimulasse suas emoções. Quanto mais altiva e distante ela fosse, melhor transmitiria a imagem de pudor, elegância e sofisticação. Daí Stendhal dizer que o pudor é a mãe do amor.

A conduta regrada da dama fixava uma distância do cavalheiro, que o levava a imaginar suas qualidades em lugar de experimentá-las. O amor era assim a sublimação do desejo? Não afirmaria isso, mas sim que o amor era o resultado da sublimação das emoções, de qualquer emoção um pouco mais exaltada e desmedida: alegria, tristeza, ansiedade...

“O Vermelho e o Negro” é uma exemplificação de toda a teoria de Stendhal. Julien Sorel e Mathilde nunca estão certos do que sentem um pelo outro. Ora estão possuídos por um sentimento maior que a razão e contra o qual não podem impor qualquer resistência, ora simplesmente esqueceram o que sentiam há uma hora. O menor detalhe destrói a imagem do ser amado, assim como o menor detalhe é suficiente para construir uma imagem super estimada do amado:

“Mais do que levado pelo amor, ele mesmo excitava sua imaginação. Era depois de perder-se em devaneios sobre a elegância do porte da srta. De La Mole, sobre o gosto excelente de seus trajes, sobre a alvura de sua mão, sobre a beleza de seu braço, sobre a disinvoltura de todos os seus movimentos, que ele se sentia apaixonado. Então, para completar o encanto, via nela uma Catarina de Médici. Nada era profundo demais ou perverso demais para o caráter que ele lhe atribuía” (O Vermelho e o Negro, 2003:347).

“Suas palavras tão francas, mas tão estúpidas, vieram mudar tudo num átimo: Mathilde, segura de seu amor, desprezou-o completamente” (ibidem:380).

A conquista do amante se faz não com claras declarações do que se sente, mas com dissimulações. Em seus ensinamentos, o príncipe Korasoff diz a Julien que para conquistar a orgulhosa Mathilde precisava aparentar o contrário do  que se esperava dele.

Meu interesse na obra de Stendhal não é tanto pelo seu conceito de amor, mas sim em recolher as pistas que deixou sobre o processo pelo qual se deu a “repressão” dos sentimentos na corte francesa do início do século XIX. Me interessa, sobretudo, a descrição que faz da associação entre a dissimulação de qualquer emoção e o status de classe social. A dama da corte não poderia simplesmente declarar seu sentimento, precisava aparentar certo orgulho, desprezo e distância social. A sofisticação e a distinção associavam-se ao pudor. Também os jogos de sedução faziam parte de um script, eram brincadeiras que divertiam e faziam gastar o tempo da nobreza ociosa e cuja riqueza levava a um sentimento de tédio e fastio.

O que não é possível compreender, considerando apenas a obra de Stendhal, é o percurso completo pelo qual o processo civilizador transformou o ideal do amor, que já foi completamente subversivo, num sentimento regrado e produtivo. Apesar do amor em Stendhal ser um artifício da imaginação, ainda assim é possível identificar elementos de rebeldia no imaginário que o cerca. O que encanta Mathilde em Julien Sorel é a possibilidade de contravenção social, de desafiar as regras sociais ao unir-se a um homem de classe social inferior. Por outro lado, o que despreza é a mesmice de um casamento arranjado segundo interesses puramente econômicos e de status. Se voltarmos a um momento anterior a obra de Stendhal, o amor é um sentimento ainda mais excluído dos espaços instituídos. Tomemos o exemplo de Tristão e Isolda. Ela era uma rainha, que abandona seu título para viver ao lado de um rude cavaleiro e na completa miséria.

Hoje, o amor é um sentimento cujo ápice de sua realização se faz na união estável com filhos e férias anuais. A concretização deste sentimento é o casamento e a família. É preciso entender qual foi o caminho pelo qual domesticamos nossas emoções para que coubessem nos limites estreitos da vida doméstica. Minha hipótese é que precisamos acrescentar às descrições de Stendhal as contribuições da Igreja Católica e do Protestantismo. Assunto para o qual pretendo retornar no próximo post.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Onde estará o amor no século XXI?....

Um amigo postou esta foto no Facebook e resolvi trazer para cá. Fiquei pensando, por que se tornou cada vez mais difícil encontrar namorados aos beijos? Onde eles se esconderam? Ou foram simplesmente embora? Há tantos corações desenhados em camisetas, bonés e agendas à venda nos shoppings, mas menos beijos nas filas do cinema. O cinema era a desculpa para o beijo. Não é mais necessária a desculpa, então por que o beijo? Foram se embora os amantes, esvaziaram as filas dos cinemas, e os gramados das praças também estão desertos. Onde estará o amor no século XXI?


Estou lendo O Vermelho e o Negro de Stendhal. Logo, comentarei aqui. Posso adiantar que nesta obra observamos algumas evidências sobre como era interpretado o amor no início do século XIX. Antes de tudo, ele é um jogo social, por isso a menor atitude pode provocá-lo ou ofuscá-lo. É preciso certa habilidade para controlar palavras e expressões, saber interpretar a troca de olhares e os mais pequenos gestos. É uma linguagem sofisticada pouco acessível a um camponês sem instrução. Também amar é atravessar a fronteira do pecado e entregar-se aos arroubos de uma doença obsessiva. O amor situa-se entre a insensatez e o crime, por isso não há um espaço instituído para ele na sociedade do início do século XIX.