segunda-feira, 7 de março de 2011

Sem tempo para as anáguas

Quem se lembra das anáguas? Minha mãe abandonou vários vestidos porque, quando andava, deixavam a anágua aparecer. Assim como também passou a não falar com amigas que propositalmente permitiam a rendinha da anágua vir a público. Não eram confiáveis. Essa peça íntima simplesmente sumiu do guarda-roupa feminino. Não encontramos uma última unidade nem mesmo em lojas de departamento ou em armarinhos antigos. Restou a lembrança daquele tempo quando não se permitiam roupas transparentes, em que o pudor era uma qualidade necessária no mundo feminino. Uma mulher sem pudor perdia a honra, que era o capital social mais importante que possuía. Não bastavam modos recatados, era preciso esbanjar a honra, parecer ter pudor, daí a função das anáguas. É como hoje, não basta ser magro é preciso esbanjar magreza com fotos no Facebook e Orkut ou reclamando em público de suas horas em academia.

Rendas na barra da anágua
As anáguas contribuíam para disfarçar a musculatura do bumbum e coxas, mas também tinham seu charme. Na barra, se costuravam românticas rendinhas que eram um toque de sensualidade revelado somente entre quatro paredes, depois de vencidas todas as etapas da sedução. Eram tão sensuais as rendinhas que a moda do século XXI fez uma releitura delas – foram colocadas propositalmente e descaradamente na barra das saias. Veja bem caro leitor, não são saias com rendas, simulam anáguas com rendas, como se fossem uma sobreposição.

Desta forma, assim como as alças dos sutiãs finalmente vieram a público – mal sabe o mundo masculino durante quantos séculos as mulheres sofreram com roupas que deixavam a alça do sutiã aparecer – as anáguas também ganharam as ruas e a luz do dia. Acontece que a sensualidade exposta acaba menos sensual, pois o desejo surge da fantasia e não do que os olhos vêem.
Moda do século XXI reedita as anáguas
Mas contei toda essa história das anáguas para perguntar por que nossa sociedade precisa tanto exibir sensualidade? Por que a sensualidade tornou-se pública? Saiu da intimidade e passou a ser exposta em vitrines, outdoors, catálogos, TVs?... De forma que não restou mais nenhum susto em relação à nudez.

Quando eu era criança, na época do Carnaval, havia sempre uma expectativa em relação às roupas das passistas. Qual seria a ousadia naquele ano? Sempre achei que chegaria um momento que não sobraria mais nada para ser retirado. Me perguntava: quando a nudez vai acabar? E agora aconteceu, a nudez acabou. Não existe mais nudez no sentido de algo a ser revelado. Somos a sociedade que precisa de artifícios para a sensualidade, que precisa retornar ao passado e buscar seus ícones de sensualidade. Mas não é só a nudez que acabou, a honra feminina deixou de ser um valor.

Anáguas a mostra no séc.XXI
A honra tinha um custo para a mulher e também para o homem, em outras palavras, não era fácil manter a honra, exigia grande dispêndio de tempo e para não dizer de dinheiro. Para proteger sua honra a mulher adiava qualquer aproximação até ter certeza de que a pessoa ao seu lado era mesmo o grande e único amor de sua vida. Desta forma, havia todo um ritual de sedução, de conquista e de resistência: o flerte, o pegar na mão, o segurar na cintura.... Todo um ritual que foi sendo esvaziado e substituído por praticidade e funcionalidade.

Não quero dizer que as mulheres dos anos 50 e 60, antes da revolução sexual, eram mais felizes. Não estou querendo reviver a censura à sexualidade, apenas digo que a liberação não precisava vir acompanhada necessariamente do exíguo tempo que desprendemos hoje conhecendo o outro. A praticidade e a funcionalidade do mundo moderno estenderam-se a relação a dois. Raramente saímos com outra pessoa somente para conversar. Raramente temos tempo para seduzir alguém com olhares e gestos, vai-se direto ao assunto. E o assunto é o que interessa.

É assim que não há mais tempo a se perder com anáguas. É preciso deixar a mostra, conhecer rápido, falar o que se deseja, nada de insinuar. Preocupações mais importantes que as conquistas e jogos amorosos nos ocupam: o trabalho, a urgência da empresa, a concorrência, a estrema especialização, o conhecimento infindável... A honra não é mais um valor para a mulher, ela pode ir ao mercado de trabalho ganhar dinheiro e comprar honra. Aliás, outras qualidades se associaram a honra, o reconhecimento do mercado de trabalho, a remuneração pelo trabalho prestado, os artifícios de status resultantes do cargo.

terça-feira, 1 de março de 2011

Idéias sobre o livro de Stone

Lawrence Stone
Estava lendo "A transformação da Intimidade" de Giddens e ele citou Lawrence Stone: "Família, sexo e matrimônio na Inglaterra 1500-1800". Consegui encontrar o livro, em espanhol, numa livraria em Sampa. Estou gostando muito e será muito útil no meu trabalho de pesquisa. Há dados interessantes como a descrição que faz do matrimônio na baixa Idade Média. Embora tenha lido muito sobre esse período, ainda não havia dado conta da relação que ele estabelece entre propriedade, patriarcado e matrimônio.


Numa sociedade sem a presença do Estado, a segurança da família é a propriedade. Ela garante não apenas prestígio, poder, ganhos econômicos, mas também a segurança física. Quanto maior o número de pessoas que vivem em torno da propriedade, maior o poder do nobre, pois maior é a quantidade de braços para a guerra. Nesse cenário, o matrimônio não pode ser uma questão individual, pois tem implicações para todos os entes familiares.

Tudo muda de figura quando a propriedade deixa de ser o centro da organização da vida social. O patriarca é esvaziado de seu poder pelo Estado e pela Igreja. Outras alternativas de renda aparecem que não apenas aqueles provenientes da propriedade rural. A sociedade começa a abrir espaço para a individualidade em conseqüência de mudanças na transmissão de herança, na subordinação dos filhos aos pais e na defesa da propriedade privada, além de um processo de urbanização crescente que esvazia o poder patriarcal. Essas mudanças possibilitam a vontade individual e também o matrimônio baseado em afinidades e afeto.

No entanto, nesse percurso histórico há questões que permanecem em aberto, como o próprio Stone reconhece. Ele diz que durante o período patriarcal, que ele data anterior ao século XVI, as relações entre pais e filhos e marido e mulher eram muito estúpidas e violentas. Descreve casos de agressão, que para ele, não eram casos isolados, mas constantes. Guerras, doenças e o alto índice de mortalidade infantil impediam que os pais guardassem muito zelo para com os filhos. Ele credita à fragilidade da vida humana em geral o baixo sentimento de estima que havia entre pais e filhos, ou entre marido e mulher. Em geral, as pessoas casavam-se várias vezes, pois enviuvavam novas. A média de vida era de 32 anos. Os filhos dificilmente eram criados pelos pais, mas entregues a amas, avôs e tios, em razão também da morte prematura.

A partir do século XVII, essas relações passam por uma transformação. Emerge a família nuclear burguesa com a dedicação da esposa ao lar, o carinho dos pais aos filhos e o cuidado com a educação das crianças. Qual é a fonte destas mudanças? A morte deixou de ser um fato inevitável, aumentou-se a expectativa de vida das crianças e dos adultos? É aqui que sua análise fica a desejar. Ele enumera razões ideológicas, religiosas e econômicas sem aprofundar em nenhuma. Particularmente, acho suas razões ideológicas fracas: liberalismo (John Locke) com sua defesa da propriedade individual e os direitos naturais do homem. E as religiosas são conhecidas, o protestantismo com seu organizar o mundo, exigindo maior atenção dos pais a educação dos filhos com conseqüências também sobre a introspecção: “O puritano estava constantemente em busca de sua alma, realizando um inventário moral e espiritual para descobrir se estava ou não entre os eleitos por Deus” (Stone, 1990: 127). Quanto as econômicas, as mudanças estavam basicamente no surgimento da propriedade privada tal qual a conhecemos hoje e do capitalismo com suas novas oportunidades, além da alfabetização de uma parcela maior da população.

“Na raiz de todas as mudanças mais importantes dos fins do século XVII e do XVIII se encontra uma progressiva reorientação da cultura para a busca de prazer no mundo, mais que desejar a gratificação para o seguinte. Um aspecto foi a crescente confiança na capacidade do homem para dominar o meio ambiente e moldá-lo para seu uso e benefício... esta reorientação das metas humanas foi possível graças a mudança de uma atitude de resignação passiva diante da enfermidade, a exploração, a pobreza e a miséria como parte da vontade de Deus e que eram atenuados somente pela promessa de recompensa após a morte” (idem:131).

Entre a descrição que ele faz num primeiro momento para as mudanças que aponta um século depois há um gap. O que aconteceu com o homem que espancava mulheres e filhos, torturava os servos, e não se submetia ao poder central da Igreja e do Estado? Não são apenas mudanças de ordem econômica, mas mudanças de conduta. As justificativas e explicações de Stone são insuficientes para a transformação que  aponta.

Sentimos falta de um Nobert Elias, que descreva com riqueza de detalhes o jogo de relações entre os indivíduos, as pressões e controles sociais que acabam levando a alterações na estrutura da personalidade, a maior auto-controle sobre as pulsões, instintos primários e emoções. Creio que há um conjunto de mudanças que levam a transformações na intimidade da família, que deve ser tratado como processos casuais e independentes que se somam. Não vou descrevê-los, apenas enumerá-los para que outro dia possamos voltar a este assunto:

a) O enfraquecimento da nobreza rural e de seus valores e de suas formas de convivência: heroísmo, violência física e patriarcalismo. O fortalecimento da nobreza de corte com conseqüente avanço das regras sociais palacianas.

b) O surgimento dos jogos de amor como uma forma de entretenimento na vida social. O amor marginal, excluído da vida familiar.

c) O fortalecimento da burguesia e a reinvenção da família. A vida torna-se urbana, casas menores, menor número de criados, presença da esposa na educação dos filhos.

d) A conduta moral burguesa como um distintivo social em relação a conduta do nobre, tido como desregrado, imoral e perdulário.

e) Esvaziamento do poder patriarcal em favor da Igreja e do Estado. Centralização das normas do matrimônio nessas instituições.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Aprender a perder tempo



 
A modernidade inventou o hábito de cronometrar o cotidiano. Refiro-me a estranha mania de colocar horário para tudo: para acordar, para trabalhar, para aprender, para amar, para lanchar... É verdade que sempre houve certa divisão de rotinas, mas sem a precisão das horas. Basta lembrar que Galileu estabeleceu as primeiras relações entre espaço e tempo no século XVI. Em 1595, ele descobriu a Lei do Pêndulo, que contribuiu para o avanço dos relógios mecânicos, embora os primeiros relógios fossem artigos de luxo, verdadeiras jóias e símbolos da alta aristocracia. Eram usados mais por status que por sua utilidade.

O fixar tempo para as mínimas ações humanas surge da necessidade de tornar a produção eficiente. Produzir o máximo no menor tempo é um preceito que orientou a revolução industrial e que serviu para regular as relações econômicas e produtivas, mas que não deveria se estender, como ocorre atualmente, a todas as esferas da vida, inclusive a sentimental.

Hoje, o tempo passou a servir de medida não só para observar quantidade de objetos produzidos, mas também para avaliar realização pessoal. Somos mais ou menos realizados conforme consigamos conquistar um bom emprego, comprar uma casa, ter um filho, estabelecer uma relação estável com outra pessoa, concluir os estudos... em prazos previstos. Nos tornamos responsáveis por fechar certos ciclos da vida na idade convencionada como correta, não importam os acasos, as diferentes experiências, os desejos e valores que nos orientam. Certos padrões de idade e realização se fixaram como corretos e as pessoas são responsabilizadas, individualmente, caso não os cumpram.

É preciso alcançar determinados resultados na vida pessoal, do contrário, por alguma razão o sujeito será menos que o outro, seja porque não soube aproveitar oportunidades, gerenciar emoções e desejos, superar fraquezas, ser persistente e disciplinado, fazer as melhores escolhas, enfim, ser eficiente na esfera privada. Desta forma, se o tempo foi uma variável relacionada à eficiência e produtividade no mundo econômico, tornou-se um importante indicador para avaliar se o indivíduo soube bem conduzir sua vida pessoal para uma situação estável.

Ao tornar-se uma medida aplicável a qualquer dimensão da vida, o tempo fez aumentar a auto-exigência, a auto-regulação, sobre domínios que não temos completo controle ou que não permitem padronizações. Como posso saber quando vou me apaixonar? E como pode ser minha a responsabilidade pelo prazo em que essa paixão vai durar? E por que sou mais ou menos apaixonado conforme minha relação dure mais ou menos? Como diria Vinícius de Moraes, há relações que “são eternas enquanto duram”. A experiência do que vivemos e como, e a avaliação se valeu à pena ou não são individuais; não são passíveis de padronização.

Ora, mas se passamos a avaliar nossas realizações pessoais pela variável tempo, somos também mais ou menos eficientes conforme venhamos a concluir ou não os necessários ciclos da vida nos prazos previstos. Eficiência passa a ser um conceito aplicável a esfera privada. Dessa associação decorre uma terceira, tão estranha quanto, a de tornar eficiência sinônimo de felicidade. Nos acostumamos a pensar que pessoas realizadas são pessoas felizes.

Para superar esta confusão, precisamos ter claro que o controle do tempo é uma estratégia para disciplinar o indivíduo. Contar o tempo que o operário leva para desenvolver certa tarefa, por exemplo, é uma forma de impedir que ele se disperse em conversas e devaneios. Aplicado como medida a dimensão privada de nossas vidas, o tempo funciona como autocontrole, com um resultado disciplinar ainda mais rígido e eficiente que qualquer controle externo, pois passa a ser realizado pelo próprio indivíduo e se estende a sua intimidade, aos seus pensamentos, sentimentos e emoções. Regula suas escolhas mais particulares, num nível de profundidade que seria impossível de ser penetrado pelas instituições.

Como o Estado pode dizer como devemos amar, por quanto tempo e se é correto ou não nos entregarmos a uma paixão avassaladora e doentia? A Igreja até pode fazer recomendações, mas que poder ela tem para alterar suas escolhas? Ocorre que, mesmo sem qualquer força coercitiva externa, olhamos para o tempo que regula nossas vidas e pensamos: “É melhor acabar agora esse relacionamento, ele já está atrapalhando o meu trabalho. Estou perdendo tempo demais com essa pessoa”. E corremos para a estabilidade do casamento antes que seja tarde demais.

O tempo é, assim, uma fonte contínua de ansiedade por cumprir prazos e exigências colocados principalmente por aqueles que nos são mais próximos e caros: amigos, parentes, vizinhos, colegas de trabalho. O tempo tem um peso direto sobre a identidade do indivíduo, a imagem que faz de si mesmo, e o prestígio que goza junto aos grupos de que participa. Por isso, é muito difícil para qualquer pessoa romper com a medida de tempo e experimentar sua vida sem qualquer preocupação com o resultado e quando atingi-lo. A atitude mais comum é entregar-se a essa neurose coletiva.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Comer, rezar, amar

“Aqui nos Estados Unidos, o casamento tem um poder místico, intangível: é um passaporte para a idade adulta, para a respeitabilidade e, em certa medida, para a cidadania. Qualquer relacionamento ou estado civil que não seja ‘casado’ é considerado indigno”. A afirmação é de Elizabeth Gilbert, autora do best-seller “Comer, rezar, amar”, numa entrevista a revista Marie Claire. Seu livro deu origem ao filme com mesmo nome e que estreou esta semana nos cinemas brasileiros.

Nele não são apenas os americanos que valorizam tanto o casamento. Liz (personagem principal vivida por Julia Roberts) é questionada várias vezes por outras mulheres a respeito de seu estado civil e é com certo constrangimento que ela responde ser divorciada. Chega a confessar ao amigo que nutria um sentimento de culpa por ter terminado seu casamento, aparentemente, estável e com uma pessoa que gostava dela.

Liz resolve concluir a relação, quando percebe que o sentimento e o desejo sexual se esgotaram e que o casal passaria a uma vida de aparência. Ao terminar o casamento, ela sai a procura do auto-conhecimento e de equilíbrio espiritual. Sua busca é bem ao estilo dos livros de auto-ajuda orientais.

Assistindo ao filme, eu me perguntava: que fundamento para a vida ela encontrará? Confesso que alimentei com certa expectativa a esperança de algo que me surpreendesse. Não foi o que aconteceu. Liz roda três países para extrair conclusões que estão em qualquer livro de auto-ajuda: viver o prazer em si mesmo,  livrar-se de qualquer sentimento de culpa e abrir-se para o risco de um novo relacionamento. No final do filme, sua grande conquista é amar novamente com a mesma paixão do primeiro amor. Se ela tivesse encontrado o atual marido no início do filme, os outros ensinamentos seriam dispensáveis.

Podemos concluir, depois de assistir a “Comer, rezar e amar”, que a grande realização para a mulher é mesmo o casamento e, principalmente, quando ele vem acompanhado de um pouco de paixão. A conquista de Liz não é o amor com sexo avassalador, ou alguém por quem tenha que superar preconceitos sociais, raciais, etc. Não, é um amor adocicado, cotidiano, brejeiro. Sem altos nem baixos, mas constante como os finais de semana em família. Assim o fundamento para sua existência, sua grande conquista, é recuperar a situação de mulher casada, que a legitima socialmente.

Não sou atraída por esses amores bem-comportados, mas pelos amores ao estilo de Nelson Rodrigues. Em “Asfalto Selvagem: Engraçadinha, seus pecados e seus amores”, Luís Cláudio, um funcionário do Itamaraty, propõe a Engraçadinha: “Vamos fugir?” Ela pergunta: “Fugir? Ele responde: “Fugir, sim. Fugir simplesmente. É tão simples fugir”. O amor tem esse ímpeto de romper com tudo sem qualquer preocupação com o que virá depois. Fugir para onde? E fazer o que depois de fugir? Perguntaria qualquer pessoa numa situação de normalidade. Mas quem ama não se pergunta pelo que vai acontecer logo ali em frente. Por um momento a sociedade não existe. É completamente o oposto de quem está preocupado em legitimar-se na sociedade. Diz Renato Janine Ribeiro que o conflito com a sociedade do herói apaixonado vai além daquele vivido pelo revolucionário, pois esse ainda deseja salvar ou recriar a sociedade. Já o apaixonado escolhe a morte social, a morte de suas honras e riquezas, às vezes a própria morte (A Paixão Revolucionária e a Paixão Amorosa em Stendhal).

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O amor não é produtivo


Adão e Eva, de Lucas Cranach
 Nenhuma outra sociedade, a não ser a moderna sociedade ocidental, estabeleceu o amor como base para o casamento. E é fácil entender a razão. O amor paixão é conflituoso com as rotinas da vida cotidiana. Pode fazer o indivíduo alternar situações de estrema tristeza a estrema euforia. Outras horas, o conduz ao simples estado contemplativo. Costuma também não respeitar as regras de relacionamento estabelecidas, subverte diferenças de renda, escolaridade, idade, raça e religião.


“O envolvimento emocional com outro é invasivo – tão forte que pode levar o indivíduo ou ambos os indivíduos, a ignorar suas obrigações habituais”, diz Giddens (1993: 48). Sem contar, que nunca sabemos realmente se de fato amamos. Podemos morrer de amor por alguém hoje e simplesmente odiá-lo amanhã. Por essa razão, em qualquer outra sociedade, o casamento se assentou em fundamentos mais sólidos e estáveis que o estado de encantamento do amor paixão. Estabeleceu-se a partir de contratos econômicos, trocas familiares e obrigações recíprocas.

Mas não é apenas a instituição casamento que, para sua sobrevivência, exige certo domínio sobre as emoções, várias outras organizações e instituições teriam seu funcionamento comprometido se os indivíduos que delas participam não soubessem ou não estivessem dispostos a controlar seus ímpetos de raiva, tristeza, alegria... Simplesmente, o mundo moderno com seus horários, exigências de produtividade, interações civilizadas não seria possível se não tivéssemos aprendido a dominar a torrente de nossos sentimentos.

Freud e Foucault descrevem a repressão da sexualidade como condição para o desenvolvimento de nossa cultura. A libido foi desviada da realização sexual para o trabalho, a arte, a produção intelectual, diz Freud. Já Foucault acredita que o Ocidente desenvolveu técnicas para reprimir a expressão da sexualidade e controlar a intimidade. Mas penso que os instintos e impulsos sexuais são apenas parte de um problema maior que é controlar e dominar todas as nossas emoções. Embora a sexualidade seja conseqüência também de nossas emoções – indivíduos tristes sentem menos disposição sexual, assim como o ciúme alimenta a imaginação e ativa em alguns casos o desejo sexual – não é suficiente o controle sobre a sexualidade e diria até que ele é mais fácil de se obter que o controle sobre a emoção.

A revista Veja (ano 43, n. 39, setembro 2010) traz uma matéria interessante sobre as emoções. Segundo a reportagem, as emoções estão associadas à tomada de decisões, das mais simples às mais complexas, e também resultam de algumas substâncias químicas produzidas pelo nosso organismo. Para o argumento que desenvolvemos neste texto, importa saber que em excesso qualquer emoção pode nos tornar extremamente improdutivos. Até mesmo alegria demais não é bom, poder levar o indivíduo a colocar-se em situações de risco: exagerar no consumo de álcool, praticar sexo inseguro, comprar compulsivamente... Por outro lado, a tristeza também tem seu preço: distúrbios do sono, problemas de peso, fadiga, irritação, apatia, lentidão física e intelectual, entre outras.

As emoções são muitas, mas não importa qual delas, seja em excesso ou em falta, são sempre improdutivas. São necessárias quando dosadas. O medo e a raiva, por exemplo, estão associados ao instinto de preservação, prepara o organismo para reagir em situações de perigo, para lutar ou fugir. Assim, podemos afirmar que se não tivéssemos aprendido a dosar nossas emoções, simplesmente não teríamos desenvolvido qualquer civilização. Melhor, a afirmação não é bem essa. Com base nos estudos de Nobert Elias, veremos que as emoções não são inatas. Elas se desenvolvem e se modificam em sociedade. De alguma forma, as emoções estão relacionadas a conteúdos morais e por isso, as reações das pessoas são diferentes conforme a cultura da qual participam e o momento histórico que vivenciam.
Adão e Eva, Lucas Cranach, 1526

Comportamentos que na Idade Média passariam por normais, hoje nos causariam repugnância, como: escarrar a mesa, mexer o molho com os dedos, limpar os dentes com a ponta da faca, limpar o nariz com a mão, beber no prato... Elias explica que o indivíduo está imbricado numa teia de relações que o leva a desenvolver um controle cada vez mais preciso sobre sua conduta. O que de início é um controle externo, no processo de socialização torna-se autocontrole automático, inconsciente, quase uma segunda natureza.

A reação de nojo é conseqüência de um processo de socialização que nos ensinou formas de condutas convencionadas como corretas. Desde a mais tenra idade, a criança aprende a calcular o efeito de suas ações e de outras pessoas e a controlar seus impulsos e ações. As emoções são reflexos ora de prazer, quando a conduta adota é socialmente aceita, ora como sanções, quando é reprovável. As estruturas psíquicas mais arraigadas e profundas provocam reações químicas conforme a leitura que fazemos do ambiente social.

Com o amor não é diferente. Corresponde a uma reação de prazer quando nos identificamos com o outro, mas um sentimento que também foi dosado e modelado no decurso do processo civilizador. Antes de tornar-se fundamento para o casamento, o amor era um sentimento clandestino, que acontecia entre amantes e em segredo; que desembocava no crime, no suicídio, na tragédia; e que não abria mão do ímpeto da raiva e do ciúme. O amor era uma doença para as famílias cristãs, até mesmo com sintomas descritos em livros médicos, e não recomendado às boas moças.

Transformamos o elemento de liberdade e transgressão do amor, num sentimento bem comportado, racionalizado e represado nas regras do casamento – que também mudaram. O casamento deixou de ser um simples contrato econômico e passou a incluir, entre os seus fundamentos, o amor e a vida sexual. O casamento perdeu desta forma grande parte das suas qualidades de racionalidade e pragmatismo, mas a sociedade conseguiu delimitar um espaço onde o amor pudesse existir sem colocar constantemente em risco as instituições. Não apenas deram-lhe um lugar, mas também fizeram seus participantes acreditar que o que antes era espontâneo e fugaz, poderia durar o resto da eternidade como parte do elemento divino no homem.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A civilização e a domesticação do amor em Austen e Brontë


Os personagens de Jane Austen surpreendem pelo tanto que são comedidos em suas emoções, polidos em suas maneiras, assexuados e cercados por constantes obrigações sociais. As menores atitudes - como um olhar, o tom de voz, o enrubescer - estão carregadas de significado e são controladas pelos mais próximos. Seus personagens experimentam um autocontrole tão rigoroso que fiquei em dúvida se poderíamos das descrições de Austen deduzir as regras de conduta que orientaram a sociedade inglesa na passagem do século XVIII ao XIX. Seriam reflexos dos ideais religiosos protestantes ou deveriam ser tratadas como simples abstrações de um ideal conduta desejada pela autora?

Resolvi ler outra autora do mesmo período e da mesma corrente literária. Parti para Emily Brontë, O Morro dos Ventos Uivantes. E que surpresa ao deparar com personagens e descrições da sociedade completamente avessas aquelas de Jane Austen! Qual a razão?

Austen fala das relações cotidianas e familiares da nobreza inglesa. Alguns de seus personagens não são nobres, mas é sobre as relações da nobreza com a classe média ascendente, a comunicação entre integrantes dessas duas classes, que a maioria dos conflitos que norteia sua obra se desenrola. Já Emily Brontë volta-se para a sociedade distante dos círculos de convivência com a nobreza, focaliza o modo de vida daqueles que residiam no campo e que pouco contato mantinham com os salões e teatros onde se desenvolviam os hábitos sociais mais sofisticados. Seus personagens vivem isolados nas grandes propriedades rurais e o a maior proximidade que experimentam com o mundo civilizado e citadino é a missa na capela do vilarejo.

Não participam, como os personagens de Austen, dos bailes, não se obrigam a manter uma rotina de visitas, jantares e outras obrigações sociais. Vivem mais em contato com a natureza e com os animais. É verdade que os personagens de Austen também residem no campo, mas estão continuamente em viagens para Londres – centro da civilização. Em Morro dos Ventos Uivantes, eles nunca saem do campo, não têm amigos ou parentes fora daquele ambiente.

A distância tão clara entre a vida social e as regras de conduta descritas por Austen e Brontë não resulta apenas de diferenças de estilo entre as autoras ou do objeto de suas descrições. Denuncia a visão de mundo dominante naquele período que apontava para qualidades do comportamento discrepantes entre o campo e a cidade, entre aqueles distantes do mundo civilizado e os outros que o construíam. É conhecido que a nobreza da corte (alta nobreza) mantinha certo desprezo pelo comportamento da nobreza provinciana (Balzac, Nobert Elias). Quanto mais próxima a convivência com o rei e sua corte, maiores eram as exigências sobre os modos de vestir, comer, falar, caminhar... A sofisticação de modos e linguagem conferia status ao indivíduo e facilitava estabelecer amizades, obter novos convites para eventos sociais, manter-se presente no ambiente onde o poder e o prestígio se distribuíam. Por essa razão, podemos dizer que não se trata de construções abstratas das duas autoras, mas reflete a visão que a classe média ascendente e a nobreza tinham das distâncias que separavam esses dois mundos e do que era portar-se de maneira civilizada.

As diferenças no comportamento dos personagens e da vida social que participam, entre as duas autoras, resultam de cortes distintos sobre a realidade social, no entanto complementares de uma visão de mundo dominante naquele período e que pode ser lida em outros autores.

Muitas das características do personagem Heathcliff (Morro dos Ventos Uivantes, Emily Brontë, 1847) aproximam-se de Drácula (Drácula, Bram Stocker, 1897). Não são obras próximas, cinqüenta anos as separam. No entanto, não acredito que as semelhanças sejam acasos. Drácula e Heathcliff são acometidos por um amor fulminante e impossível. Perdem a mulher de suas vidas por amor. Não é uma morte natural – claro suicídio no primeiro caso e morte provocada no segundo. A partir deste momento, eles se isolam do mundo, rompem com as regras morais católicas e praticam a maldade e a violência de maneira gratuita. Do amor passam ao ódio, que alimentará a vingança impiedosa que empreendem. Se transformam numa espécie de monstro que vaga no limite entre o mundo real e o sobrenatural. É a paixão desmedida, incontrolada, a incapacidade de Drácula e Heathcliff de dominarem suas emoções, de racionalizarem seus sentimentos, que os levam para o crime e que os aproximam da selvageria e bestialidade.

Se fosse possível traçar uma linha imaginária, de um lado estariam a razão e os sentimentos religiosos e do outro, a insensatez e os impulsos demoníacos. Em Brontë e Bram Stocker, o amor é um sentimento que não cabe nas convenções e instituições sociais estabelecidas. De tão desmedido torna suas vítimas insanas e as enclausura numa dimensão não humana, que impossibilita viver em paz. Essa definição diabólica do amor também pode ser lida nos textos médicos e religiosos do período. Para a Igreja, amar alguém mais que a Deus era pecado e impedia o indivíduo de conquistar a vida eterna. A Igreja Católica defendia a renúncia completa ao mundo – nada mais terreno que desejar realizar-se no outro. No protestantismo, não se trata de renunciar ao mundo, mas de viver os ideais cristãos no cotidiano, fazer uso das coisas do mundo para servir e glorificar a Deus. Os prazeres terrenos não podem ser experimentados como fins em si mesmos, devem servir como instrumentos para edificar um mundo ordenado e coerente com a vontade divina (Cf. As fontes do Self, Charles Taylor). Desse modo os sentimentos precisam ser moderados, distanciados, domesticados e capazes de caber nas rotinas da vida familiar. Como as pessoas devem se comportar na visão protestante é exatamente (por coincidência ou não) como são descritos os personagens de Jane Austen.

Eles não se parecem em nada com Drácula e Heathcliff. São extremamente racionais, educados, contidos e capazes de administrar situações estressantes e conflituosas conduzindo-as para finais felizes. É precisamente pela habilidade que possuem em gerenciar a expressão e a vazão de suas emoções que evitam que as situações que atravessam desemboquem na tragédia, no suicídio, no crime e na infelicidade.

Agora podemos resumir a visão de mundo desses três autores: Stocker, Austen e Brontë.

O amor e qualquer outro sentimento incontrolado só são possíveis num mundo que ainda não se civilizou. Persistem em pessoas que vivem isoladas nas propriedades rurais, distantes da sociedade e em contato com a natureza. Essas pessoas são quase selvagens e o sentimento delas também. A paixão desenfreada de Heathcliff por Catherine ou de Drácula por Mina não poderia existir nos salões ingleses com seus passos sincronizados e gestos medidos. A estupidez, a raiva, o ódio, a vingança, a paixão indomável são características do selvagem que ainda habita o homem e a porta de entrada para o demônio.

domingo, 18 de julho de 2010

O prazer sem desculpas

Não há nada de filosófico em Fanny Hill (de John Cleland, publicado em 1749). Apenas descrições cansativas, repetitivas e cheias de detalhes sobre as aventuras sexuais de sua protagonista. O autor não tem a pretensão a qualquer análise ou crítica a sociedade da época. Não há conflitos psicológicos em seus personagens – não são figuras complexas. Não há sequer uma trama bem construída. É uma sucessão de experiências sexuais com um final feliz e moralmente correto. O que retirar do livro, então?

Uma clara separação entre sexo e amor. A certeza de que o sexo está relacionado aos artifícios da imaginação, a idade e aos acasos. Também que as circunstâncias podem favorecer uma vida libertina, independente da personalidade e da educação do indivíduo. Por que o livro escandalizou tanto quando foi publicado, sendo sua publicação proibida nos Estados Unidos até 1966?

Porque fala da sexualidade feminina em si, sem nenhum atenuante. No livro, as mulheres não são vítimas dos jogos de sedução ou de qualquer armadilha. Não é pela força ou por imposição da sociedade que são levadas para cama. Também não são enganadas por fantasias de amor de cavalheiros galantes. O desejo da mulher, neste livro, está dissociado de qualquer norma social ou imposição – ele acontece por homens de classe social mais baixa, por idosos, por sexualmente pervertidos... E não é por caridade ou dinheiro que a jovem Fanny e suas amigas se entregam a orgias com todos esses tipos, mas puramente por prazer.

Talvez por isso escandalizasse tanto. Por descrever a sexualidade feminina e defender que o sexo não inclui necessariamente o amor. Pode até acontecer, mas será uma feliz coincidência.

Termino de ler Fanny Hill e parto para "O Sofá" de Crébillon Fils. Também um romance libertino, publicado em 1742.