sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A civilização e a domesticação do amor em Austen e Brontë


Os personagens de Jane Austen surpreendem pelo tanto que são comedidos em suas emoções, polidos em suas maneiras, assexuados e cercados por constantes obrigações sociais. As menores atitudes - como um olhar, o tom de voz, o enrubescer - estão carregadas de significado e são controladas pelos mais próximos. Seus personagens experimentam um autocontrole tão rigoroso que fiquei em dúvida se poderíamos das descrições de Austen deduzir as regras de conduta que orientaram a sociedade inglesa na passagem do século XVIII ao XIX. Seriam reflexos dos ideais religiosos protestantes ou deveriam ser tratadas como simples abstrações de um ideal conduta desejada pela autora?

Resolvi ler outra autora do mesmo período e da mesma corrente literária. Parti para Emily Brontë, O Morro dos Ventos Uivantes. E que surpresa ao deparar com personagens e descrições da sociedade completamente avessas aquelas de Jane Austen! Qual a razão?

Austen fala das relações cotidianas e familiares da nobreza inglesa. Alguns de seus personagens não são nobres, mas é sobre as relações da nobreza com a classe média ascendente, a comunicação entre integrantes dessas duas classes, que a maioria dos conflitos que norteia sua obra se desenrola. Já Emily Brontë volta-se para a sociedade distante dos círculos de convivência com a nobreza, focaliza o modo de vida daqueles que residiam no campo e que pouco contato mantinham com os salões e teatros onde se desenvolviam os hábitos sociais mais sofisticados. Seus personagens vivem isolados nas grandes propriedades rurais e o a maior proximidade que experimentam com o mundo civilizado e citadino é a missa na capela do vilarejo.

Não participam, como os personagens de Austen, dos bailes, não se obrigam a manter uma rotina de visitas, jantares e outras obrigações sociais. Vivem mais em contato com a natureza e com os animais. É verdade que os personagens de Austen também residem no campo, mas estão continuamente em viagens para Londres – centro da civilização. Em Morro dos Ventos Uivantes, eles nunca saem do campo, não têm amigos ou parentes fora daquele ambiente.

A distância tão clara entre a vida social e as regras de conduta descritas por Austen e Brontë não resulta apenas de diferenças de estilo entre as autoras ou do objeto de suas descrições. Denuncia a visão de mundo dominante naquele período que apontava para qualidades do comportamento discrepantes entre o campo e a cidade, entre aqueles distantes do mundo civilizado e os outros que o construíam. É conhecido que a nobreza da corte (alta nobreza) mantinha certo desprezo pelo comportamento da nobreza provinciana (Balzac, Nobert Elias). Quanto mais próxima a convivência com o rei e sua corte, maiores eram as exigências sobre os modos de vestir, comer, falar, caminhar... A sofisticação de modos e linguagem conferia status ao indivíduo e facilitava estabelecer amizades, obter novos convites para eventos sociais, manter-se presente no ambiente onde o poder e o prestígio se distribuíam. Por essa razão, podemos dizer que não se trata de construções abstratas das duas autoras, mas reflete a visão que a classe média ascendente e a nobreza tinham das distâncias que separavam esses dois mundos e do que era portar-se de maneira civilizada.

As diferenças no comportamento dos personagens e da vida social que participam, entre as duas autoras, resultam de cortes distintos sobre a realidade social, no entanto complementares de uma visão de mundo dominante naquele período e que pode ser lida em outros autores.

Muitas das características do personagem Heathcliff (Morro dos Ventos Uivantes, Emily Brontë, 1847) aproximam-se de Drácula (Drácula, Bram Stocker, 1897). Não são obras próximas, cinqüenta anos as separam. No entanto, não acredito que as semelhanças sejam acasos. Drácula e Heathcliff são acometidos por um amor fulminante e impossível. Perdem a mulher de suas vidas por amor. Não é uma morte natural – claro suicídio no primeiro caso e morte provocada no segundo. A partir deste momento, eles se isolam do mundo, rompem com as regras morais católicas e praticam a maldade e a violência de maneira gratuita. Do amor passam ao ódio, que alimentará a vingança impiedosa que empreendem. Se transformam numa espécie de monstro que vaga no limite entre o mundo real e o sobrenatural. É a paixão desmedida, incontrolada, a incapacidade de Drácula e Heathcliff de dominarem suas emoções, de racionalizarem seus sentimentos, que os levam para o crime e que os aproximam da selvageria e bestialidade.

Se fosse possível traçar uma linha imaginária, de um lado estariam a razão e os sentimentos religiosos e do outro, a insensatez e os impulsos demoníacos. Em Brontë e Bram Stocker, o amor é um sentimento que não cabe nas convenções e instituições sociais estabelecidas. De tão desmedido torna suas vítimas insanas e as enclausura numa dimensão não humana, que impossibilita viver em paz. Essa definição diabólica do amor também pode ser lida nos textos médicos e religiosos do período. Para a Igreja, amar alguém mais que a Deus era pecado e impedia o indivíduo de conquistar a vida eterna. A Igreja Católica defendia a renúncia completa ao mundo – nada mais terreno que desejar realizar-se no outro. No protestantismo, não se trata de renunciar ao mundo, mas de viver os ideais cristãos no cotidiano, fazer uso das coisas do mundo para servir e glorificar a Deus. Os prazeres terrenos não podem ser experimentados como fins em si mesmos, devem servir como instrumentos para edificar um mundo ordenado e coerente com a vontade divina (Cf. As fontes do Self, Charles Taylor). Desse modo os sentimentos precisam ser moderados, distanciados, domesticados e capazes de caber nas rotinas da vida familiar. Como as pessoas devem se comportar na visão protestante é exatamente (por coincidência ou não) como são descritos os personagens de Jane Austen.

Eles não se parecem em nada com Drácula e Heathcliff. São extremamente racionais, educados, contidos e capazes de administrar situações estressantes e conflituosas conduzindo-as para finais felizes. É precisamente pela habilidade que possuem em gerenciar a expressão e a vazão de suas emoções que evitam que as situações que atravessam desemboquem na tragédia, no suicídio, no crime e na infelicidade.

Agora podemos resumir a visão de mundo desses três autores: Stocker, Austen e Brontë.

O amor e qualquer outro sentimento incontrolado só são possíveis num mundo que ainda não se civilizou. Persistem em pessoas que vivem isoladas nas propriedades rurais, distantes da sociedade e em contato com a natureza. Essas pessoas são quase selvagens e o sentimento delas também. A paixão desenfreada de Heathcliff por Catherine ou de Drácula por Mina não poderia existir nos salões ingleses com seus passos sincronizados e gestos medidos. A estupidez, a raiva, o ódio, a vingança, a paixão indomável são características do selvagem que ainda habita o homem e a porta de entrada para o demônio.

domingo, 18 de julho de 2010

O prazer sem desculpas

Não há nada de filosófico em Fanny Hill (de John Cleland, publicado em 1749). Apenas descrições cansativas, repetitivas e cheias de detalhes sobre as aventuras sexuais de sua protagonista. O autor não tem a pretensão a qualquer análise ou crítica a sociedade da época. Não há conflitos psicológicos em seus personagens – não são figuras complexas. Não há sequer uma trama bem construída. É uma sucessão de experiências sexuais com um final feliz e moralmente correto. O que retirar do livro, então?

Uma clara separação entre sexo e amor. A certeza de que o sexo está relacionado aos artifícios da imaginação, a idade e aos acasos. Também que as circunstâncias podem favorecer uma vida libertina, independente da personalidade e da educação do indivíduo. Por que o livro escandalizou tanto quando foi publicado, sendo sua publicação proibida nos Estados Unidos até 1966?

Porque fala da sexualidade feminina em si, sem nenhum atenuante. No livro, as mulheres não são vítimas dos jogos de sedução ou de qualquer armadilha. Não é pela força ou por imposição da sociedade que são levadas para cama. Também não são enganadas por fantasias de amor de cavalheiros galantes. O desejo da mulher, neste livro, está dissociado de qualquer norma social ou imposição – ele acontece por homens de classe social mais baixa, por idosos, por sexualmente pervertidos... E não é por caridade ou dinheiro que a jovem Fanny e suas amigas se entregam a orgias com todos esses tipos, mas puramente por prazer.

Talvez por isso escandalizasse tanto. Por descrever a sexualidade feminina e defender que o sexo não inclui necessariamente o amor. Pode até acontecer, mas será uma feliz coincidência.

Termino de ler Fanny Hill e parto para "O Sofá" de Crébillon Fils. Também um romance libertino, publicado em 1742.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

O amor e o pudor em Stendhal



O amor é o milagre da civilização
Stendhal


Terminei de ler o Vermelho e o Negro e deveria voltar aqui para comentá-lo, conforme prometi. Mas preferi adiar um pouco e fazer uma comparação com outro livro do autor, Do Amor. Nessa obra, Stendhal teoriza o que exemplificará na literatura.

O amor para Stendhal é um artifício da imaginação, uma construção mental, criação que faz vítima seu próprio autor. Ora ele o chama de loucura, ora diz que é como uma febre que nasce e morre sem a interferência da razão.

Para Stendhal, o amor não era um sentimento natural e presente em qualquer momento da história da humanidade. Em Do Amor, ele repete que camponeses e selvagens, preocupados com a necessidade imediata da sobrevivência, jamais o experimentaram. Ele era resultado da refinação dos costumes, da delicadeza dos prazeres, das horas de lazer e solidão que a vida na corte propiciava. A distância social e a formalidade a que os nobres estavam sujeitos facilitavam os jogos de conquistas, os flertes  e a construção de uma imagem idealizada do ser amado. A partir de pequenos detalhes, o amante projetava qualidades que a pessoa sequer pensou em aparentá-las. A esse processo ele chamou de cristalização –   como cristais que depositados sobre as folhas de uma árvore lhe dão outra forma em nada parecida com a original.

Ele explica que os “jogos de corte” não apenas criavam condições ideais para os arroubos da imaginação, mas que a união ou apenas a proximidade com nobres ensejava oportunidades sociais e políticas raras: “Não havia cortesão que não sonhasse com a fortuna rápida de um Luynes ou de um Lauzun, e mulher amável que não visse em perspectiva o ducado da madame de Polignac” (Do Amor, 2007:21). Assim, a possibilidade de ascensão social ou de subverter as regras sociais, que limitavam o contato entre indivíduos de classes sociais diferentes, funcionava como uma espécie de atrativo ao amor.

Na visão de Stendhal, o amor é o resultado de uma vida social que favorece a imaginação, mas também da dissimulação e repressão dos sentimentos. Porque o nobre não podia simplesmente expressar seu desejo, ele precisava cumprir todo um ritual de conquista  que o tornava vítima de seu próprio jogo. Segundo Stendhal, a vida na corte exigia, principalmente da mulher, que dissimulasse suas emoções. Quanto mais altiva e distante ela fosse, melhor transmitiria a imagem de pudor, elegância e sofisticação. Daí Stendhal dizer que o pudor é a mãe do amor.

A conduta regrada da dama fixava uma distância do cavalheiro, que o levava a imaginar suas qualidades em lugar de experimentá-las. O amor era assim a sublimação do desejo? Não afirmaria isso, mas sim que o amor era o resultado da sublimação das emoções, de qualquer emoção um pouco mais exaltada e desmedida: alegria, tristeza, ansiedade...

“O Vermelho e o Negro” é uma exemplificação de toda a teoria de Stendhal. Julien Sorel e Mathilde nunca estão certos do que sentem um pelo outro. Ora estão possuídos por um sentimento maior que a razão e contra o qual não podem impor qualquer resistência, ora simplesmente esqueceram o que sentiam há uma hora. O menor detalhe destrói a imagem do ser amado, assim como o menor detalhe é suficiente para construir uma imagem super estimada do amado:

“Mais do que levado pelo amor, ele mesmo excitava sua imaginação. Era depois de perder-se em devaneios sobre a elegância do porte da srta. De La Mole, sobre o gosto excelente de seus trajes, sobre a alvura de sua mão, sobre a beleza de seu braço, sobre a disinvoltura de todos os seus movimentos, que ele se sentia apaixonado. Então, para completar o encanto, via nela uma Catarina de Médici. Nada era profundo demais ou perverso demais para o caráter que ele lhe atribuía” (O Vermelho e o Negro, 2003:347).

Suas palavras tão francas, mas tão estúpidas, vieram mudar tudo num átimo: Mathilde, segura de seu amor, desprezou-o completamente” (ibidem:380).

A conquista do amante se faz não com claras declarações do que se sente, mas com dissimulações. Em seus ensinamentos, o príncipe Korasoff diz a Julien que para conquistar a orgulhosa Mathilde precisava aparentar o contrário do  que se esperava dele.

Meu interesse na obra de Stendhal não é tanto pelo seu conceito de amor, mas sim em recolher as pistas que deixou sobre o processo pelo qual se deu a “repressão” dos sentimentos na corte francesa do início do século XIX. Me interessa, sobretudo, a descrição que faz da associação entre a dissimulação de qualquer emoção e o status de classe social. A dama da corte não poderia simplesmente declarar seu sentimento, precisava aparentar certo orgulho, desprezo e distância social. A sofisticação e a distinção associavam-se ao pudor. Também os jogos de sedução faziam parte de um script, eram brincadeiras que divertiam e faziam gastar o tempo da nobreza ociosa e cuja riqueza levava a um sentimento de tédio e fastio.

O que não é possível compreender, considerando apenas a obra de Stendhal, é o percurso completo pelo qual o processo civilizador transformou o ideal do amor, que já foi completamente subversivo, num sentimento regrado e produtivo. Apesar do amor em Stendhal ser um artifício da imaginação, ainda assim é possível identificar elementos de rebeldia no imaginário que o cerca. O que encanta Mathilde em Julien Sorel é a possibilidade de contravenção social, de desafiar as regras sociais ao unir-se a um homem de classe social inferior. Por outro lado, o que despreza é a mesmice de um casamento arranjado segundo interesses puramente econômicos e de status. Se voltarmos a um momento anterior a obra de Stendhal, o amor é um sentimento ainda mais excluído dos espaços instituídos. Tomemos o exemplo de Tristão e Isolda. Ela era uma rainha, que abandona seu título para viver ao lado de um rude cavaleiro e na completa miséria.

Hoje, o amor é um sentimento cujo ápice de sua realização se faz na união estável com filhos e férias anuais. A concretização deste sentimento é o casamento e a família. É preciso entender qual foi o caminho pelo qual domesticamos nossas emoções para que coubessem nos limites estreitos da vida doméstica. Minha hipótese é que precisamos acrescentar às descrições de Stendhal as contribuições da Igreja Católica e do Protestantismo. Assunto para o qual pretendo retornar no próximo post.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Onde estará o amor no século XXI?....

Um amigo postou esta foto no Facebook e resolvi trazer para cá. Fiquei pensando, por que se tornou cada vez mais difícil encontrar namorados aos beijos? Onde eles se esconderam? Ou foram simplesmente embora? Há tantos corações desenhados em camisetas, bonés e agendas à venda nos shoppings, mas menos beijos nas filas do cinema. O cinema era a desculpa para o beijo. Não é mais necessária a desculpa, então por que o beijo? Foram se embora os amantes, esvaziaram as filas dos cinemas, e os gramados das praças também estão desertos. Onde estará o amor no século XXI?


Estou lendo O Vermelho e o Negro de Stendhal. Logo, comentarei aqui. Posso adiantar que nesta obra observamos algumas evidências sobre como era interpretado o amor no início do século XIX. Antes de tudo, ele é um jogo social, por isso a menor atitude pode provocá-lo ou ofuscá-lo. É preciso certa habilidade para controlar palavras e expressões, saber interpretar a troca de olhares e os mais pequenos gestos. É uma linguagem sofisticada pouco acessível a um camponês sem instrução. Também amar é atravessar a fronteira do pecado e entregar-se aos arroubos de uma doença obsessiva. O amor situa-se entre a insensatez e o crime, por isso não há um espaço instituído para ele na sociedade do início do século XIX.

domingo, 23 de maio de 2010

Do amor clandestino ao amor civilizado


Quando uma relação de amor se encontra no seu apogeu, não há margem para qualquer interesse no mundo circundante; o par de amantes é suficiente em si e para si mesmo, não necessita sequer do filho que têm em comum para fazê-los felizes”, sentencia Freud em O Mal- Estar na Civilização. Para ele, nenhuma civilização é possível sem um mínimo de repressão dos instintos sexuais primários, mas nessa obra Freud acrescenta mais um problema a ser investigado. Não é apenas a busca ilimitada pelo prazer que é impossível na cultura civilizada, também a satisfação de Eros, a plena identidade entre os indivíduos. Levado ao seu extremo, a união dos amantes não contribui para a reprodução da sociedade, pois o casal não tem necessidade sequer do filho para completá-lo. Assim, a cultura leva inevitavelmente à repressão sexual, mas também dos laços emocionais extremos. O indivíduo se disciplina não apenas em seus impulsos sexuais, mas  o desejo para amar, odiar, alegrar-se ou entristecer-se.

Freud não fundamentou empiricamente suas afirmações e categorias de análise: ego, id e superego. Podemos dizer, sem sermos injustos, que foi Nobert Elias, em O Processo Civilizador, que construiu uma fundamentação histórica para essas categorias, demonstrando de que forma a sociedade caminhou para maior controle do indivíduo sobre suas pulsões, instintos e sentimentos. No entanto, as descrições históricas de Nobert Elias concentraram-se principalmente sobre como o indivíduo moderno civilizado modificou seus hábitos alimentares e fisiológicos, refreou a expressão de suas vontades primárias, adquiriu um controle automático sobre sua conduta. Os dados empíricos que ele levanta se limitam a descrever mudanças nas normas de condutas sociais. Sua narrativa não aprofunda como o mesmo processo disciplinar aconteceu em relação aos sentimentos.

Nobert Elias diz que o amor é uma sublimação de instintos primários, que passa a existir no momento em que as vontades sexuais em relação ao outro não podem ser imediatamente satisfeitas. Na Idade Média, os cavaleiros tinham menor controle sobre suas paixões e podiam expressar abertamente seus impulsos violentos e sentimentos de alegria e dor. A interdependência na sociedade da corte européia levou o indivíduo a maior vigilância sobre sua conduta. O campo de batalha foi transportado para dentro do indivíduo:

“Parte das tensões e paixões que antes eram liberadas diretamente na luta de um homem com outro terá agora que ser elaborada no interior do ser humano. As limitações mais pacíficas a ele impostas por suas relações com outros homens espelham-se dentro dele; um padrão individualizado de hábitos semi-automáticos se estabeleceu e consolidou nele, um “superego” específico que se esforça por controlar ou suprimir-lhe as emoções de conformidade com a estrutura social” (Nobert Elias, O Processo Civilizador, vl 2, pag. 203).

Embora enunciado por Nobert Elias, o processo de repressão dos sentimentos, de autocontrole automático sobre as paixões não está historicamente descrito. É preciso narrar o processo pelo qual o amor deixa de ser clandestino e torna-se um sentimento bem comportado no seio da família nuclear burguesa.

Nos primeiros anos do cristianismo, o sentimento entre homem e mulher não era abençoado pela Igreja e até mesmo o casamento era considerado uma forma de adultério. Não constituía um caminho para a vida cristã e, por essa razão, não era um sacramento. O cristão a ser agraciado com a salvação era aquele capaz de renunciar completamente ao mundo. Como a castidade era uma qualidade de alguns poucos eleitos, a Igreja não exercia controle rigoroso sobre o comportamento de seus fiéis e sacerdotes. O celibato figurava como ideal somente para aqueles que se entregassem completamente a vida cristã e que fossem abençoados por Deus. Sozinho, por seus próprios meios, o homem não conseguia renunciar aos prazeres do mundo:

Quem deseja ser casto, deve recorrer ao Senhor e instar-lhe fervorosamente em oração, para que se digne de conceder-lhe esta mercê; porque se ele liberalmente lha não der, de nada lhe servirão todos os arbítrios para a conseguir (A mocidade enganada, desenganada: (...), Manoel Conciencia, Officina Augustiniana, Lisboa, 1730).

A partir de Gregório VII, a Igreja passa a defender o celibato para os sacerdotes e o casamento como uma concessão para o homem comum. Todos devem buscar uma vida casta e moderada. O casamento torna-se o espaço onde a relação sexual pode se realizar desde que observada uma série de prescrições: não ser parente até o quarto grau, respeitar os dias santos... A partir do momento em que o casamento se torna um sacramento, ele se legitima por outras razões que não apenas aquelas de interesse econômico: precisa contar com o consentimento mútuo, ter por fim a criação e educação dos filhos e estar baseado no sentimento de solidariedade e ajuda mútua. São conteúdos que dão ao casamento uma santificação, que até então não possuía. No entanto, não é o amor o sentimento básico do casamento no final da Idade Média, mas sim o sentimento de caridade. Esse é o início de um processo para tornar um sentimento que tinha sido sempre clandestino, conforme descrevi em outros posts, para ser o que legitimará a união do casal.

No entanto, a extensão do celibato para todos os membros da Igreja e do casamento como um celibato de menor grau a todos os laicos é lento e sofre fortes críticas e protestos mesmo dentro dos quadros da Igreja. A sociedade da corte ainda é muito libertina e os nobres colocarão forte resistência a regulação da Igreja Católica sobre o casamento, principalmente, porque interferia nos seus interesses de transmissão de herança.

Maior controle sobre as pulsões sexuais e o casamento como devendo ser acompanhado de um sentimento e não apenas de cálculos utilitários é resultado de uma cultura protestante burguesa que irá ascender na Europa e que busca se distanciar dos nobres em seu estilo de vida. Também decorre de maior liberdade que o indivíduo moderno adquire para a construção de sua identidade. O sentimento de amor está relacionado ao processo de individuação, pois significa o aproximar-se do outro por afinidades (valores, condutas, padrões estéticos e ideais) e não em resposta aos interesses familiares.

É essa narrativa histórica, descrita aqui de forma muito fragmentada e resumida, que é preciso ser feita dando conta do processo pelo qual a formação da sociedade moderna também foi acompanhada pela repressão dos sentimentos e da sua condução para a forma bem comportada do casamento.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

O romance de Tristão e Isolda


Apesar de trair seu pai adotivo e assassinar quem denunciou seu amor por Isolda, Tristão não vive nenhum drama psicológico por isso. O casal sofre por não encontrar condições ideais para vivenciar seu sentimento, mas não possui nenhum pesar em arquitetar mil artimanhas para enganar o pobre rei Marc. A lenda de Tristão e Isolda data do século XII e nela podemos encontrar evidências do que falamos em outros posts sobre a problematização do amor.

A culpa do casal é perdoada porque foi vítima de uma bebida mágica. A mãe de Isolda quis ajudar a filha a se apaixonar por seu futuro marido. Preparou uma porção e confiou a criada que fizesse os noivos tomarem antes da noite nupcial. “Os que a beberem juntos amar-se-ão com todos os seus sentidos e com todo o seu pensamento, para sempre, na vida e na morte”, explicou a mãe de Isolda. Por acaso, Isolda bebe a porção junto com Tristão e não com o rei Merc.

A bebida mágica tem muita semelhança com a figura do Cupido, nos dois casos o amor é uma fatalidade que não deixa nenhuma margem de escolha aos amantes. Não é um sentimento humano, mas uma capricho da vontade divina. Porque os amantes não têm escolha, não possuem culpa sobre o que fazem para ficar juntos. É como se estivessem possuídos por uma idéia obsessiva, por uma doença que os impede de pensar melhor e pesar suas atitudes. Por essa razão, Tristão repete, em defesa de sua inocência, que nunca havia amado a rainha com “amor culpável”. No seu entendimento e de quem descreve a lenda, ele é completamente inocente.

Tristão e Isolda são vítimas de um sentimento que os domina e que os expõe a viver uma situação para sempre inviável e por essa razão, infeliz e angustiante. A criada de Isolda lê para o casal a sentença a que estariam sujeitos para o resto da vida: “... o caminho é sem retorno, a força do amor já vos impele, e nunca mais tereis alegria sem dor”. A lenda repete o que pode ser lido textualmente em outros textos do período – como em “Tratado do amor cortês” de André Capelão -, que o amor está restrito a uma posição marginal na sociedade. Não pode existir no casamento, tampouco ser exibido nos círculos sociais. Ele existe a noite, entre amantes, sabido apenas por seus confidentes.



O único momento em que Tristão e Isolda ficam juntos, é quando fogem e se escondem na floresta que circunda o palácio. No entanto, amargam uma vida miserável. Vivem da caça, emagrecem, vestem roupas rasgadas, dormem ao relento. Embora estejam juntos não conseguem experimentar felicidade em sua união. Como sentenciou a criada de Isolda: “Bebeste o amor e a morte”.

Tristão e Isolda são vítimas do capricho divino, das restrições da sociedade, de um sentimento que é quase uma doença. Cometem, em defesa do que sentem, inúmeras infrações, no entanto, permanecem inocentes, pois foram escolhidos pela vontade superior a experimentar para o resto da vida e talvez da morte- pois são enterrados juntos –, um amor que os escraviza. Apesar de seus crimes não são culpados. A própria sociedade sai em defesa deles quando são sentenciados pelo rei Merc a serem queimados vivos.

Porque não há culpa digo que não há problematização do amor. Questionará o leitor: "Não é suficiente tudo que o casal passou? Não são problemas?" Sim, experimentam vários problemas, mas não existe a culpa. Eles não reprimem o que sentem, não são recriminados pela sociedade, não são condenados pela religião, não lutam para que o sentimento exista na vida doméstica, nos canais formais. O amor está fora da sociedade e por conseqüência seu amantes não sofrem o peso da sociedade. O amor nesta lenda é pagão, é desleal, é traidor, não tem limites.

Nossa sociedade moderna reinventou o amor bem comportado com “sabor de fruta mordida”. Mas de vez em quando o amor de Tristão e Isolda reaparece com toda a sua violência nas páginas policiais da grande Imprensa.

sexta-feira, 12 de março de 2010

O que está proibido é o desejo sexual

É uma evidência do narcisismo assexualizado da sociedade brasileira contemporânea a censura ao comercial da Devassa. Tomei conhecimento do caso pelo blog do publicitário Lenadro Wirz (mardecoisa.blogspot.com) e resolvi comentá-lo aqui, onde o espaço é maior. A pergunta imediata que ocorre é por que? Por que censurar um comercial que é semelhante a cem mil outros comerciais de cerveja? Mulher bonita e quase pelada, cerveja gelada, um bando de homem embasbacado, qual a novidade? Por que o comercial da Devassa é mais ofensivo a imagem da mulher e estimula, mais que os outros, o consumo excessivo de álcool? Implicância pura e simples do Conselho Nacional de Autorregulação Publicitária?

Creio que não. Há um elemento nesse comercial que o faz diferente dos outros: fala de uma mulher que é sensual, que estimula a imaginação e seduz aqueles que a observam. Transeuntes, vizinhos e até mesmo duas mulheres param para olhá-la. Ela se sabe observada pelo fotógrafo do prédio em frente e insinua-se esfregando-se no vidro, enquanto a lata gelada escorrega pelo seu corpo. Na fotografia que interrompe o filme, há desejo em seu olhar. Paris Hilton, atriz que interpretada a personagem, está até mais vestida que outras loiras de comerciais de cerveja. Acontece que nos outros comerciais, as loiras são apenas bonitas, nuas e inatingíveis. A cerveja só uma bebida.

Corpos dourados não transmitem, necessariamente, apelo sexual. Na televisão brasileira, não há nada mais comum e explorado que a nudez em todas as cores. Diria mesmo que ela já não provoca nenhum impacto. O que causou a reação dos censores foi o apelo sexual do comercial. Isso é uma evidência de que, embora jornais, revistas e televisão divulguem diariamente imagens de corpos perfeitos, não é a sexualidade o que desejam despertar. Trata-se apenas de um padrão de beleza aceito e explorado como produto. Quem persegue esse padrão também não visa atrair alguém, não é o desejo o que está em jogo, mas uma pura e inocente exibição narcísica. Do contrário, os outros comerciais, desde o banho das atrizes globais no comercial do Lux de Luxo até personagens de grifes infantis deveriam ser censurados. O que causou estranhamento no comercial da Devassa não foi a loira bonita e quase nua, foi a sua sensualidade. O que está proibido é o desejo sexual.

Agora imagine, caro leitor, quantos potes e potes de cremes dermatológicos são produzidos, quanto de fortuna não fazem as incontáveis clínicas de cirurgia plástica, sem contar o que se produz de roupas coladas a micro biquínis, tudo isso apenas para satisfazer nosso narcisismo e o jogos narcisistas em que nos envolvemos diariamente. Como diria Foucault, “o poder no Ocidente é o que mais se mostra, portanto o que melhor se esconde” (Microfísica do Poder, 2003:237). Parece que tudo esbanja sexualidade, desejo, juventude e prazer; mas estamos apenas consumindo esses valores. Podemos não ir além da aparência. Não faremos mais sexo, ou experimentaremos paixões, ou nos encontraremos com nossos impulsos e vontades. Podemos ficar satisfeitos com os potes de creme e parar por aí.

É isso que a indústria de estética deseja? Não creio. Concordo com Foucault quando diz que o poder não é um ator unificado com uma ação orientada para perpetuar-se. O poder está assentado em micropráticas cotidianas que têm como efeito tornar o corpo mais dócil. Todavia, o poder não é hegemônico, está sujeito a constante microcontestações e pode ser subvertido a qualquer momento.