domingo, 23 de maio de 2010

Do amor clandestino ao amor civilizado


Quando uma relação de amor se encontra no seu apogeu, não há margem para qualquer interesse no mundo circundante; o par de amantes é suficiente em si e para si mesmo, não necessita sequer do filho que têm em comum para fazê-los felizes”, sentencia Freud em O Mal- Estar na Civilização. Para ele, nenhuma civilização é possível sem um mínimo de repressão dos instintos sexuais primários, mas nessa obra Freud acrescenta mais um problema a ser investigado. Não é apenas a busca ilimitada pelo prazer que é impossível na cultura civilizada, também a satisfação de Eros, a plena identidade entre os indivíduos. Levado ao seu extremo, a união dos amantes não contribui para a reprodução da sociedade, pois o casal não tem necessidade sequer do filho para completá-lo. Assim, a cultura leva inevitavelmente à repressão sexual, mas também dos laços emocionais extremos. O indivíduo se disciplina não apenas em seus impulsos sexuais, mas  o desejo para amar, odiar, alegrar-se ou entristecer-se.

Freud não fundamentou empiricamente suas afirmações e categorias de análise: ego, id e superego. Podemos dizer, sem sermos injustos, que foi Nobert Elias, em O Processo Civilizador, que construiu uma fundamentação histórica para essas categorias, demonstrando de que forma a sociedade caminhou para maior controle do indivíduo sobre suas pulsões, instintos e sentimentos. No entanto, as descrições históricas de Nobert Elias concentraram-se principalmente sobre como o indivíduo moderno civilizado modificou seus hábitos alimentares e fisiológicos, refreou a expressão de suas vontades primárias, adquiriu um controle automático sobre sua conduta. Os dados empíricos que ele levanta se limitam a descrever mudanças nas normas de condutas sociais. Sua narrativa não aprofunda como o mesmo processo disciplinar aconteceu em relação aos sentimentos.

Nobert Elias diz que o amor é uma sublimação de instintos primários, que passa a existir no momento em que as vontades sexuais em relação ao outro não podem ser imediatamente satisfeitas. Na Idade Média, os cavaleiros tinham menor controle sobre suas paixões e podiam expressar abertamente seus impulsos violentos e sentimentos de alegria e dor. A interdependência na sociedade da corte européia levou o indivíduo a maior vigilância sobre sua conduta. O campo de batalha foi transportado para dentro do indivíduo:

“Parte das tensões e paixões que antes eram liberadas diretamente na luta de um homem com outro terá agora que ser elaborada no interior do ser humano. As limitações mais pacíficas a ele impostas por suas relações com outros homens espelham-se dentro dele; um padrão individualizado de hábitos semi-automáticos se estabeleceu e consolidou nele, um “superego” específico que se esforça por controlar ou suprimir-lhe as emoções de conformidade com a estrutura social” (Nobert Elias, O Processo Civilizador, vl 2, pag. 203).

Embora enunciado por Nobert Elias, o processo de repressão dos sentimentos, de autocontrole automático sobre as paixões não está historicamente descrito. É preciso narrar o processo pelo qual o amor deixa de ser clandestino e torna-se um sentimento bem comportado no seio da família nuclear burguesa.

Nos primeiros anos do cristianismo, o sentimento entre homem e mulher não era abençoado pela Igreja e até mesmo o casamento era considerado uma forma de adultério. Não constituía um caminho para a vida cristã e, por essa razão, não era um sacramento. O cristão a ser agraciado com a salvação era aquele capaz de renunciar completamente ao mundo. Como a castidade era uma qualidade de alguns poucos eleitos, a Igreja não exercia controle rigoroso sobre o comportamento de seus fiéis e sacerdotes. O celibato figurava como ideal somente para aqueles que se entregassem completamente a vida cristã e que fossem abençoados por Deus. Sozinho, por seus próprios meios, o homem não conseguia renunciar aos prazeres do mundo:

Quem deseja ser casto, deve recorrer ao Senhor e instar-lhe fervorosamente em oração, para que se digne de conceder-lhe esta mercê; porque se ele liberalmente lha não der, de nada lhe servirão todos os arbítrios para a conseguir (A mocidade enganada, desenganada: (...), Manoel Conciencia, Officina Augustiniana, Lisboa, 1730).

A partir de Gregório VII, a Igreja passa a defender o celibato para os sacerdotes e o casamento como uma concessão para o homem comum. Todos devem buscar uma vida casta e moderada. O casamento torna-se o espaço onde a relação sexual pode se realizar desde que observada uma série de prescrições: não ser parente até o quarto grau, respeitar os dias santos... A partir do momento em que o casamento se torna um sacramento, ele se legitima por outras razões que não apenas aquelas de interesse econômico: precisa contar com o consentimento mútuo, ter por fim a criação e educação dos filhos e estar baseado no sentimento de solidariedade e ajuda mútua. São conteúdos que dão ao casamento uma santificação, que até então não possuía. No entanto, não é o amor o sentimento básico do casamento no final da Idade Média, mas sim o sentimento de caridade. Esse é o início de um processo para tornar um sentimento que tinha sido sempre clandestino, conforme descrevi em outros posts, para ser o que legitimará a união do casal.

No entanto, a extensão do celibato para todos os membros da Igreja e do casamento como um celibato de menor grau a todos os laicos é lento e sofre fortes críticas e protestos mesmo dentro dos quadros da Igreja. A sociedade da corte ainda é muito libertina e os nobres colocarão forte resistência a regulação da Igreja Católica sobre o casamento, principalmente, porque interferia nos seus interesses de transmissão de herança.

Maior controle sobre as pulsões sexuais e o casamento como devendo ser acompanhado de um sentimento e não apenas de cálculos utilitários é resultado de uma cultura protestante burguesa que irá ascender na Europa e que busca se distanciar dos nobres em seu estilo de vida. Também decorre de maior liberdade que o indivíduo moderno adquire para a construção de sua identidade. O sentimento de amor está relacionado ao processo de individuação, pois significa o aproximar-se do outro por afinidades (valores, condutas, padrões estéticos e ideais) e não em resposta aos interesses familiares.

É essa narrativa histórica, descrita aqui de forma muito fragmentada e resumida, que é preciso ser feita dando conta do processo pelo qual a formação da sociedade moderna também foi acompanhada pela repressão dos sentimentos e da sua condução para a forma bem comportada do casamento.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

O romance de Tristão e Isolda


Apesar de trair seu pai adotivo e assassinar quem denunciou seu amor por Isolda, Tristão não vive nenhum drama psicológico por isso. O casal sofre por não encontrar condições ideais para vivenciar seu sentimento, mas não possui nenhum pesar em arquitetar mil artimanhas para enganar o pobre rei Marc. A lenda de Tristão e Isolda data do século XII e nela podemos encontrar evidências do que falamos em outros posts sobre a problematização do amor.

A culpa do casal é perdoada porque foi vítima de uma bebida mágica. A mãe de Isolda quis ajudar a filha a se apaixonar por seu futuro marido. Preparou uma porção e confiou a criada que fizesse os noivos tomarem antes da noite nupcial. “Os que a beberem juntos amar-se-ão com todos os seus sentidos e com todo o seu pensamento, para sempre, na vida e na morte”, explicou a mãe de Isolda. Por acaso, Isolda bebe a porção junto com Tristão e não com o rei Merc.

A bebida mágica tem muita semelhança com a figura do Cupido, nos dois casos o amor é uma fatalidade que não deixa nenhuma margem de escolha aos amantes. Não é um sentimento humano, mas uma capricho da vontade divina. Porque os amantes não têm escolha, não possuem culpa sobre o que fazem para ficar juntos. É como se estivessem possuídos por uma idéia obsessiva, por uma doença que os impede de pensar melhor e pesar suas atitudes. Por essa razão, Tristão repete, em defesa de sua inocência, que nunca havia amado a rainha com “amor culpável”. No seu entendimento e de quem descreve a lenda, ele é completamente inocente.

Tristão e Isolda são vítimas de um sentimento que os domina e que os expõe a viver uma situação para sempre inviável e por essa razão, infeliz e angustiante. A criada de Isolda lê para o casal a sentença a que estariam sujeitos para o resto da vida: “... o caminho é sem retorno, a força do amor já vos impele, e nunca mais tereis alegria sem dor”. A lenda repete o que pode ser lido textualmente em outros textos do período – como em “Tratado do amor cortês” de André Capelão -, que o amor está restrito a uma posição marginal na sociedade. Não pode existir no casamento, tampouco ser exibido nos círculos sociais. Ele existe a noite, entre amantes, sabido apenas por seus confidentes.



O único momento em que Tristão e Isolda ficam juntos, é quando fogem e se escondem na floresta que circunda o palácio. No entanto, amargam uma vida miserável. Vivem da caça, emagrecem, vestem roupas rasgadas, dormem ao relento. Embora estejam juntos não conseguem experimentar felicidade em sua união. Como sentenciou a criada de Isolda: “Bebeste o amor e a morte”.

Tristão e Isolda são vítimas do capricho divino, das restrições da sociedade, de um sentimento que é quase uma doença. Cometem, em defesa do que sentem, inúmeras infrações, no entanto, permanecem inocentes, pois foram escolhidos pela vontade superior a experimentar para o resto da vida e talvez da morte- pois são enterrados juntos –, um amor que os escraviza. Apesar de seus crimes não são culpados. A própria sociedade sai em defesa deles quando são sentenciados pelo rei Merc a serem queimados vivos.

Porque não há culpa digo que não há problematização do amor. Questionará o leitor: "Não é suficiente tudo que o casal passou? Não são problemas?" Sim, experimentam vários problemas, mas não existe a culpa. Eles não reprimem o que sentem, não são recriminados pela sociedade, não são condenados pela religião, não lutam para que o sentimento exista na vida doméstica, nos canais formais. O amor está fora da sociedade e por conseqüência seu amantes não sofrem o peso da sociedade. O amor nesta lenda é pagão, é desleal, é traidor, não tem limites.

Nossa sociedade moderna reinventou o amor bem comportado com “sabor de fruta mordida”. Mas de vez em quando o amor de Tristão e Isolda reaparece com toda a sua violência nas páginas policiais da grande Imprensa.

sexta-feira, 12 de março de 2010

O que está proibido é o desejo sexual

É uma evidência do narcisismo assexualizado da sociedade brasileira contemporânea a censura ao comercial da Devassa. Tomei conhecimento do caso pelo blog do publicitário Lenadro Wirz (mardecoisa.blogspot.com) e resolvi comentá-lo aqui, onde o espaço é maior. A pergunta imediata que ocorre é por que? Por que censurar um comercial que é semelhante a cem mil outros comerciais de cerveja? Mulher bonita e quase pelada, cerveja gelada, um bando de homem embasbacado, qual a novidade? Por que o comercial da Devassa é mais ofensivo a imagem da mulher e estimula, mais que os outros, o consumo excessivo de álcool? Implicância pura e simples do Conselho Nacional de Autorregulação Publicitária?

Creio que não. Há um elemento nesse comercial que o faz diferente dos outros: fala de uma mulher que é sensual, que estimula a imaginação e seduz aqueles que a observam. Transeuntes, vizinhos e até mesmo duas mulheres param para olhá-la. Ela se sabe observada pelo fotógrafo do prédio em frente e insinua-se esfregando-se no vidro, enquanto a lata gelada escorrega pelo seu corpo. Na fotografia que interrompe o filme, há desejo em seu olhar. Paris Hilton, atriz que interpretada a personagem, está até mais vestida que outras loiras de comerciais de cerveja. Acontece que nos outros comerciais, as loiras são apenas bonitas, nuas e inatingíveis. A cerveja só uma bebida.

Corpos dourados não transmitem, necessariamente, apelo sexual. Na televisão brasileira, não há nada mais comum e explorado que a nudez em todas as cores. Diria mesmo que ela já não provoca nenhum impacto. O que causou a reação dos censores foi o apelo sexual do comercial. Isso é uma evidência de que, embora jornais, revistas e televisão divulguem diariamente imagens de corpos perfeitos, não é a sexualidade o que desejam despertar. Trata-se apenas de um padrão de beleza aceito e explorado como produto. Quem persegue esse padrão também não visa atrair alguém, não é o desejo o que está em jogo, mas uma pura e inocente exibição narcísica. Do contrário, os outros comerciais, desde o banho das atrizes globais no comercial do Lux de Luxo até personagens de grifes infantis deveriam ser censurados. O que causou estranhamento no comercial da Devassa não foi a loira bonita e quase nua, foi a sua sensualidade. O que está proibido é o desejo sexual.

Agora imagine, caro leitor, quantos potes e potes de cremes dermatológicos são produzidos, quanto de fortuna não fazem as incontáveis clínicas de cirurgia plástica, sem contar o que se produz de roupas coladas a micro biquínis, tudo isso apenas para satisfazer nosso narcisismo e o jogos narcisistas em que nos envolvemos diariamente. Como diria Foucault, “o poder no Ocidente é o que mais se mostra, portanto o que melhor se esconde” (Microfísica do Poder, 2003:237). Parece que tudo esbanja sexualidade, desejo, juventude e prazer; mas estamos apenas consumindo esses valores. Podemos não ir além da aparência. Não faremos mais sexo, ou experimentaremos paixões, ou nos encontraremos com nossos impulsos e vontades. Podemos ficar satisfeitos com os potes de creme e parar por aí.

É isso que a indústria de estética deseja? Não creio. Concordo com Foucault quando diz que o poder não é um ator unificado com uma ação orientada para perpetuar-se. O poder está assentado em micropráticas cotidianas que têm como efeito tornar o corpo mais dócil. Todavia, o poder não é hegemônico, está sujeito a constante microcontestações e pode ser subvertido a qualquer momento.

quarta-feira, 10 de março de 2010

O narcisismo contemporâneo e a sexualidade


Não há amor sem individualidade. A afirmação parece óbvia e pressupõe o absurdo que alguém possa existir sem ser uma individualidade. Não é óbvia nem absurda. Somente para as sociedades ocidentais contemporâneas parece evidente que a toda pessoa corresponda uma individualidade. A Idade Média, por exemplo, é uma época em que os espaços para a construção da individualidade são restritos. A identidade do indivíduo é a família a que pertence, qualquer perda de prestígio e de poder que a família sofra, o afeta diretamente, não apenas em suas relações econômicas, mas também pessoais.

Quando ele pergunta quem sou eu, olha sobretudo para o passado de sua família, seu prestígio, suas propriedades e seus valores. O indivíduo está preso numa rede de relações que fixa seu futuro, sua profissão e com quem deve casar-se. O que o une o casal são deveres familiares e não afinidades ou afetividades. “Um casamento vantajoso eleva a posição do marido e a dos membros de sua linhagem: conserva-se preciosamente seu traço nas genealogias ‘casa’” (Dominique Barthélemy, A vida privada nas casas aristocráticas da França feudal, 2009:129). O amor, na Idade Média, só é possível fora do casamento, como um sentimento pagão e marginal. O amor cortês dos trovadores não existe no matrimônio, desenvolve-se nas relações extraconjugais. É vivido principalmente pelos jovens cavaleiros excluídos do direito de contrair casamento - direito restrito ao primogênito. Sendo assim, o amor é uma contravenção, uma insubordinação contra as regras familiares e religiosas e, portanto, um exercício de individualidade.

A comparação com a sociedade medieval é interessante, pois ela é o oposto do mundo que experimentamos. Se a Idade Média é um período em que o indivíduo tem pouca liberdade para fazer suas escolhas e vivenciar experiências fora das regras familiares e religiosas, no mundo atual há uma exacerbação da individualidade para o extremo do narcisismo. Não que o indivíduo contemporâneo tenha sido esvaziado de suas raízes culturais, mas os parâmetros de sua identidade são cada vez mais estéticos e de consumo. Não sei exatamente quais são as consequências sobre as relações amorosas, mas acredito que há um abandono da sexualidade, uma impaciência com o jogo amoroso em favor de outras realizações que traduzam status e poder.

Encontrei evidência empírica disso. Não é bem uma evidência, mas um indício. Na pesquisa que Datafolha realizou, 10% dos casados disseram que não fazem sexo. Desses, 25% têm entre 25 a 45 anos, ou seja, estão numa idade que seria de plena atividade sexual. Interpretando o caso, a terapeuta Tai Carvalho disse: “Fico perplexa com a quantidade de casais que trocam o sexo pela relação com o consumo, o trabalho, a boa forma, as conquistas materiais. Estão atrás de viagens, da reforma da casa, da escola para os filhos. Esse é o erotismo deles” (Folha de S. Paulo, 21.02.2010). Acho 25% de 10% um universo muito pequeno para qualquer afirmação, mas nos incita a pensar se há ou não uma migração do desejo sexual para outras realizações, se não seria reflexo de um extremo narcisismo.

O jornalista comenta que num País sensual, o jovem abriu mão da sexualidade. A aparência de corpos dourados comunicam sensualidade, mas também podem ser sinônimos de narcisismo, que é justamente o oposto de sexualidade. Observo que ocorre um crescimento das academias, das clínicas de dermatologia, das cirurgias estéticas, dos cremes rejuvenescedores e mesmo de objetos de consumo que traduzem jovialidade. Queremos fazer mais sexo em função disso? Creio que não. Estamos apenas preocupados com o que vamos encontrar no espelho e o sentido do que vamos transmitir nos grupos que participamos. A velhice não é um atributo desejado e valorizado em nossa sociedade. Tem um peso não apenas nas relações individuais, mas mesmo nas profissionais. Ser jovem e bonito é também ser bem sucedido. Associação absurda, mas muito natural nos dias de hoje.

Volto a falar sobre individualidade e amor num próximo post.

quinta-feira, 4 de março de 2010

O suicida e o homicida



Nelson Rodrigues afirmava que havia apenas dois tipos de pessoas: o homicida e o suicida. Disse só isso, não teorizou sobre o assunto, mas como sempre fazia repetiu mil vezes a mesma afirmação. Tinha certeza do que dizia.

Fiquei grilada: exagera. Deve haver gradações entre esses extremos. Mas se há apenas dois tipos, quem é o homicida e quem é o suicida?

O suicida não tem medo e o homicida só mata por medo. Ele não é o assassino, uma aberração desse tipo, mas possui ainda o medo do animal que investe com uma gana feroz sobre a presa como se a odiasse. Por medo ataca antes de ser atacado. Observo isso no cachorro, é capaz de matar alguém que sequer  vê. Simples medo.

O homicida gosta de viver e gostaria que sua vida fosse longa, previsível e presumível. É um tipo que quer segurança, família, emprego estável, salário no final do mês. É o bancário, funcionário público, contador, administrador, burocrata. Já o suicida é o contrário. Para ele a vida só tem sentido se for vivida em seus extremos: amor com paixão e sexo, esportes radicais, trabalho criativo, longas viagens sem destino... Não tem paciência para fazer sempre o mesmo trabalho, beijar a mesma mulher e ter horários. É o amante não o marido. É o argonauta. Para ele, “navegar é preciso, viver não é preciso”.

Dirá o leitor que estou atraída pelo segundo tipo de ser humano. Engana-se. Penso mesmo que nesses personagens, inventados por Nelson Rodrigues, há o melhor do ser humano. Como se fossem dois instintos básicos que ainda permanecem apesar de todo o processo civilizador.

A virtude do suicida é o risco e não existe vida sem um mínimo de risco. Podemos minimiza-lo, mas jamais eliminá-lo. No homicida, a coragem e a persistência. Como é possível construir uma casa, uma empresa, uma sociedade sem coragem e persistência? Desse lado estão todas as pessoas que se dedicam, apesar de todas as diversidades, a recomeçar todos os dias e são elas que vão aos poucos deixando realizações. Para elas, o ideal que atrai é o da igualdade. Do outro lado, os apaixonados e conquistadores. São eles que vão para o espaço, que atravessam oceanos, que estão na linha de frente de qualquer exército. São os desbravadores, os sertanejos que abrem a mata fechada para fazer passar o trem e a estrada. Seu ideal é a liberdade.

Penso que Nelson Rodrigues concordaria comigo. Não tinha preferência por nenhum dos personagens. Era seu interesse as duas modalidades de tragédias: o que mata por amor e o que é capaz de morrer por amor.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

A estranha associação entre felicidade e realização

Me surpreendo com a estranha e constante associação entre felicidade e realização na sociedade atual. O problema não é que tendo prosperado nos negócios e na profissão, naturalmente, o indivíduo se sinta feliz. Mas sim, que haja uma necessidade de evidenciar a felicidade independente das adversidades que a vida possa trazer. Veja a revista Caras. Passo as páginas e fico surpresa de não ter uma única foto onde a pessoa pelo menos não esteja forçosamente sorrindo. Um único rosto sem sorriso, não tem. Até falando da morte, os ricos e famosos sorriem.

Na minha juventude, ser feliz era como ser cínico. Vivíamos uma crise existencial constante sobre o sentido da vida e a pobreza da política nacional. Como era possível ser feliz, enquanto a maior parte da população brasileira passava fome e vivia na miséria? Como era possível contentar-se com uma casa e um carro, enquanto o país vivia uma ditadura civil que limitava as liberdades individuais? Era evidente a impossibilidade de ser feliz sem liberdade. Só a pequena burguesia se bastava com o crescimento econômico. Os intelectuais e a esquerda brasileira tinham orgulho da tristeza ou no mínimo da depressão ébria. Além do pensamento marxista que ainda inspirava a juventude brasileira nos anos 80, havia o existencialismo de Sartre: o homem está condenado à liberdade e por essa razão, há uma dúvida existencial da qual não pode fugir. Em suas menores escolhas, ele participa da definição do que é ser humano e é necessariamente infeliz por ter que escolher sem parâmetros.

Para mim, havia um exagero grotesco naquela proposital infelicidade, porque mesmo aqueles que não amargavam nenhuma dor pelas razões antes citadas, eram infelizes na aparência. Ser infeliz tinha um ar de intelectualidade e inteligência. Hoje invertemos os pólos.

Ser feliz é sinônimo de realização e infeliz de incompetência.

Feliz é aquele que conquistou tudo que a vida moderna contemporânea oferece como oportunidade: emprego estável, carreira brilhante, carro do ano, apartamento de cobertura, grifes famosas, viagens internacionais... E o infeliz é aquele que não teve nada disso. Duas questões são injustas nessa narrativa: a eliminação do acaso e dos condicionantes sociais, e a falsa idéia que o possuir é suficiente para resolver nossas questões mais íntimas e existenciais. Trocando em miúdos, a falsa idéia de que o consumo traz felicidade.

Se uma máquina do tempo trouxesse um indivíduo do século XII – XV para hoje, ele acharia absurdo que as pessoas fossem responsabilizadas por sua infelicidade. Maquiavel, que escreveu nesse período, atribuía a prosperidade do príncipe em parte a sua habilidade política e suas escolhas, mas pelo menos a outra metade a sorte e aos acasos:

“...Creio que se pode admitir que a sorte seja árbitro da metade dos nossos atos, mas que nos permite o controle sobre a outra metade, aproximadamente. Comparo a sorte a um rio impetuoso que, quando enfurecido, inunda a planície, derruba casas e edifícios, remove terra de um lugar para depositá-la em outro” (Maquiavel, O Príncipe).

Penso que essa arrogância feliz tenha a ver com o momento em que vivemos, onde tudo parece possível. Foi capa da revista Superinteressante que a próxima geração conhecerá a imortalidade. Imagina, agora que proclamamos a imortalidade, o que falta?

Mas essa é só uma face do presente, a outra remete ao consumismo. A possibilidade de adquirir tudo que necessite e mais o supérfluo remete a conclusão de que não há o que reclamar. Que problema pode ter o indivíduo que pode comprar tudo que seus olhos alcançam, viajar para todos os lugares, que possui um emprego ótimo? Que podendo produzir-se com as melhores grifes com certeza também irá conquistar o grande amor de sua vida? Qual é o problema? Só aquele que não pode consumir, por sua incompetência e falta de inteligência, está relegado a sofrer.

Se a geração dos anos 80 exaltava a dor existencial até quando não a compreendia, a atual a eliminou por completo. Podemos sofrer por não ter o que comprar, por não ganhar o salário desejado, por não estar no emprego almejado, mas jamais pelo sentido da existência.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A problematização do amor






Depois de sofrer muito por um amor não correspondido, notei que eu adorava a pessoa com sentimentos e valores muito próximos aqueles vindos da Igreja Católica. Foi a primeira vez que suspeitei existir uma confusão e que eu era a própria vítima dessa confusão.


O imaginário que cerca o conceito de amor tem algumas regras estranhas: a) Desejar a felicidade do outro mais que a sua própria felicidade; 2) Colocar a realização sexual em segundo plano; 3) Ser companheiro do outro qualquer que seja a situação; 4) Substituir ao longo do tempo a paixão por sentimentos mais constantes e amenos. Há outras regras, mas note que em todas elas há um elemento em comum: a renúncia a vontade pessoal em favor do outro. Ora, não há nada mais cristão que isso!


Não acredito que as pessoas sempre amaram segundo essas regras, houve um momento em que elas ganharam o status de verdade. Então, eu quis entender como isso aconteceu.

De todos os livros que eu li até o momento, um foi muito esclarecedor: “O amor cortês” de André Capelão. Escrito no século XII, ele deixa claro como o amor era um sentimento pagão, exterior ao casamento e que estava presente principalmente nas relações clandestinas. O amor só era possível entre amantes, não comportava longas durações, não incluía a fidelidade, não tinha nenhum objetivo produtivo, como ter filhos ou comprar uma casa. O amor era um sentimento efêmero, tempestivo, incontrolado e sexualizado. Dirá o leitor, era uma paixão. Não, pois não havia divisão entre amor e paixão, essa foi uma invenção posterior da sociedade. O amor era um sentimento incapaz de se comportar nas rotinas estabelecidas e porque era essa sua natureza, as mães não o desejavam para as filhas.


No livro, El Amor en La Idad Media, Jean Verdon recupera o diálogo do cavalheiro La Tour Landry e sua esposa sobre a atitude que devem adotar as jovens diante do amor - o texto é de 1371. O cavalheiro sustenta que a donzela ou a dama pode amar em algumas situações honráveis, como por exemplo, quando espera casar-se ou quando está casada. A mãe discorda, preferem que não amem, pois é pecado amar um homem mais que a Deus ou ter uma relação extraconjugal. Ela não admite a possibilidade da mulher amar o seu próprio marido.


Na idade Média, esse raciocínio não é absurdo. Era clara a dificuldade de existir amor entre o casal, pois os casamentos eram contratos arranjados. Interesses políticas e econômicas das famílias definiam as uniões. As mulheres se casavam muito jovens, aos doze anos, com homens muito mais velhos. A família interessava preserva a honra da donzela, mais que se preocupar com sua felicidade, pois ela era um bem de troca. Um bem que depois passava a ser do marido a quem estava completamente subordinada. Na cultura medieval, aceitava-se que o marido corrigisse a esposa, por isso eram constantes as agressões a mulher. Além disso, o casamento era um contrato com toda a racionalidade própria de um contrato. Especificava-se, no caso das famílias burguesas, por exemplo, a obrigatoriedade do marido de ensinar sua profissão ao enteado.


Tudo muda de configuração quando a Igreja Católica sacramentaliza o casamento, no século XII e XIII – o mesmo momento em que Foucault identifica uma mudança no mundo religioso em relação à penitência e confissão. A Igreja faz uma reorganização da casa (história que contarei numa outra data) e estabelece o casamento como uma forma de celibato de menor grau, um caminho para a ascensão a Deus, de renúncia ao mundo e de exercício dos valores cristãos. Para Santo Tomás de Aquino, a associação do homem e da mulher, mesmo quando não tem como objetivo a procriação, pode ser abençoada, desde que união das almas preceda a união dos corpos. Ao casar-se, homem e mulher se tornam um só corpo e por essa razão não há pecado na relação sexual. No entanto, para que essa união seja legítima e abençoada, é preciso que seja espontânea, que exista um sentimento recíproco.


Veja que nesse momento, o amor entra no casamento, mas não sem alterar o seu conteúdo. Não são mais interesses econômicos e políticos, não são desejos sexuais, mas o amor que torna-se o fundamento do casamento. Não o amor no sentido que Capelão dava ao termo, não o amor clandestino, pagão, sexualizado, impulsivo; mas o amor fraternal, desprendido, de solidariedade e de caridade. É nessa hora que a Igreja Católica problematiza a relação a dois. Ela não pode mais ser um contrato econômico, não pode acontecer entre parentes próximos, deve envolver o mútuo consentimento, deve vir acompanhada de um sentimento de desprendimento, não deve visar a realização sexual, deve ter como objetivo a procriação e a educação dos filhos.... Ao mesmo tempo em que a Igreja cria todas essas exigências ao casamento, essa instituição se torna uma área de sua jurisdição. Só ela estava habilitada a tratar os problemas conjugais, a definir quem podia casar-se com quem, a participar da educação dos filhos....


Quais são as conseqüências disso para o homem moderno? Penso que continuamos a tratar nossos relacionamentos com os filtros dos valores católicos. O casamento é um contrato econômico, que dificilmente comporta um sentimento apaixonado. Há rotinas no casamento que exaurem com o desejo sexual e com qualquer fantasia amorosa. O amor é para mim um sentimento que tem o direito de ser pagão. Ele envolve o galanteio, o flerte, o enamorar-se que subordinado a uma rotina e a problemas domésticos, inevitavelmente, esvai-se. A relação a dois há de sempre precisar de um pouquinho de imaginação para valer à pena.